Dois meses depois
Danny
Essa garota ainda me leva a loucura, to te falando. Não consegui parar de rir desde que ela chegou aqui em casa.
- Porque você, Daniel, é um sem vergonha.
Ela está me batendo e eu estou gargalhando da cara dela. O que obviamente a deixa mais possessa ainda.
- Tá rindo de que? Eu ein! Parece doente.
Ela morava comigo e eu ainda não tinha pedido pra namorar com ela. Hoje a gente fazia seis meses juntos. Não consegui continuar no apartamento antigo porque tudo me lembrava o Harry, então me mudei e perguntei se ela gostaria de morar comigo. Ela já fazia isso mesmo. Eu já estava bem em relação ao Harry. Escutar seu nome ou lembrar dele já não doía mais como antes.
- Eu to falando sério, Daniel. Você tem até sexta feira pra se decidir ou então eu vou...
- Quer namorar comigo, Sam?
- Se você não resolver o que...
Ela então parou de reclamar quando percebeu o que eu havia dito.
- O que?
- Perguntei se quer namorar comigo.
- Essa sua pergunta não merece nem resposta, Daniel.
Esperei que ela falasse algo, mas ficou por isso mesmo. Ela cruzou os braços e ficou emburrada. Como sempre.
- Por que você está assim, Sammy?
- Assim como? Eu não to assim!
Eu ri e a beijei, fazendo com que um sorriso aparecesse em seus lábios. Ela me deu um tapa no final. Normal.
- O que foi isso?
- Isso foi por me enrolar por seis meses. Porque é um absurdo que alguém possa ser capaz disso. Até a Soph e o Doug...
Lá vamos nós de novo...
Harry
- Não adianta - ela suspirou - já tentamos de tudo.
- Não tentamos. Vamos lá. Já fizemos o com sangue de galinha, o das ervas secas e também o de velas de benjoim.
- Que por acaso você nos fez ficar pelados.
- Tava escrito que a nudez purificava a alma.
- É. Bem sei o que a nudez faz.
Ela riu sarcástica e eu segurei sua mão. Era estranho porque sempre que eu o fazia, ela estremecia.
- Qual vamos tentar hoje?
- Hoje não - sorri - só amanhã.
- Por quê?
- Porque hoje faz dois meses que eu morri. E quero comemorar.
- Cruzes, Harry. Que horror.
- É que faz dois meses que eu conheci você também.
Ela corou e sorriu encabulada.
- E o que você quer fazer?
Eu a olhei maliciosamente e ela fez uma cara engraçada.
- Nem pense nisso, Harry.
- Lê mente agora? Como sabe o que eu estou pensando?
- Não sei, mas posso imaginar.
- Está redondamente enganada, duvido que você esteja pensando o mesmo que eu.
- Ah é?
- Por acaso você está pensando em um piquenique?
- Não acha manjado não? Quero dizer, esse negócio de piquenique?
- Você vai mudar de ideia quando vir o lugar.
- Que horas vamos?
- Quando seu turno acabar. Se puder sair um pouco mais cedo hoje, agradeço.
Eu sorri e ela saiu para o trabalho, me deixando sozinho em mais um dia entediante da minha morte.
Sophia
- Eu juro que não entendo porque vocês não namoram logo!
- Como assim?
- Por favor, Flor. Já tem o quê? Um ano que você e o James estão juntos?
- Nove meses. Mas eu não tenho só o James. Tem o Matt e o Simon também.
- Tá, mas todo mundo que tem olhos sabe que você gosta mais do James. E que ele já pediu pra namorar com você umas quinze vezes.
- Não é verdade. Foram só umas dez.
Rimos dela e a Bela saiu da cozinha?
- O que é tão engraçado? Quero rir também!
- Falou igual professora de colégio agora.
Ela colocou sua mão na cintura e olhou torto para nós duas.
- É sério, poxa.
- CA-RA-CA! Vocês viram isso?
Flor me mostrou o visor do seu telefone, onde continha a seguinte atualização no Facebook "Sam Bradley está em um relacionamento sério com Daniel Jones"
- NÃO ACREDITO! Ele parou de enrolar a garota!
- Aposta quanto que ele acabou de pedir e ela já colocou aqui?
- Não dá pra apostar. Sei que foi assim.
- Vê os comentários - falei.
A quantidade de "finalmente", "aeee", "já pode morrer feliz" e "parou de enrolar a garota" superava o "parabéns, felicidades pro casal e afins". Todos sabiam do rolo deles.
- Agora só falta a Flor e a Lia - Bela comentou.
- Tá. Eu pelo menos tenho quem namorar, né? - Flor falou.
- Ahá! Acabou de admitir.
- Eu não admiti nada - ela se defendeu - só falei que eu tenho três opções e que eu saiba a Thalia não tem nenhuma...
- Você não pode afirmar isso. Ela pode ter uma paixão secreta.
- Por isso, Isabela, caso não tenha percebido, falei "que eu saiba".
- Faz sentido.
- Bom - comecei - Ia chamar a Sam pra uma noite de meninas aqui em casa, mas aparentemente ela está muito ocupada hoje comemorando o recente namoro.
- Bom, vou ligar pro meu namorado porque já são duas e meia e é a nossa hora de falar ao telefone.
- Como assim hora de falar ao telefone, Bela?
- Coisa do Tom - ela deu de ombros - ele gosta de ter horas pra tudo.
- Bom, ele tem horário de ir ao banheiro pregado na porta. Se alguém estiver usando na hora que ele quiser ir, ele surta.
Bela assentiu e eu ri.
- Não sabia dessa maluquice não.
Então do nada começou um assunto sobre as manias estranhas de nossos namorados - no caso da Flor, seus três casos.
- James gosta de fazer xixi sentado quando acorda. Ele diz que é mais fácil.
- Dougie dorme enrolado com a cobra dele. Cobra mesmo, que come ratinho. ele diz que sente calor nos pés e a Filó esfria ele.
Elas riram e foi a vez da Bela de novo.
- O Tom assiste de fantasia a todas as pré-estreias dos filmes que ele gosta.
- Eu ensinei pro Matt a falar "caguei e peidei" e falei que era um cumprimento. Ele falou pra umas dez pessoas antes de descobrir.
Eu comecei a sentir o meu xixi saindo de tanto rir.
- Ai meu xixiiiiiiii - falei e saí correndo pro banheiro.
- Sophia, tá perdendo a história do Simon. Ele faz tudo de óculos. Dorme, toma banho... e até sexo! - Bela gritou e logo depois a ouvi dizendo pra Flor - Não, sério agora. Preciso ligar pro seu irmão antes que ele me mate.
Tom
Bela demorou pra me ligar e eu odiava isso, Essa coisa de ficar de gracinha com as amigas e me ignorar por completo.
- Porra. São duas e quarenta e cinco.
- Isso é sério, Tom?
- É. Você sabe que eu detesto atrasos.
- Tom, você é o atraso em pessoa.
- Não interessa, Bela. A gente tinha combinado.
- Nossa. Que bicho te mordeu hoje?
Eu já tinha percebido que aquela discussão não ia dar em nada, mas odiava perder alguma coisa, e entregar a briga era quebrar o meu orgulho.
- Nada, Bela. Nada. A gente se fala mais tarde então?
- Mas eu acabei de te ligar.
- Não to afim de conversar agora.
Ouvi um silêncio do outro lado e logo após um suspiro.
- Claro. Até mais tarde então.
E assim foi. Sem "eu te amo", "beijos", "até mais tarde, fofucho"...
Nada disso. Ela foi seca e eu fiquei um pouco arrependido de ter sido frio desnecessariamente.
- Que foi, cara?
- A Bela, cara.
- Iiiih - Doug começou - O que foi dessa vez?
- Besteira, culpa minha.
- Sabe que eu to indo muito bem com a minha Soph?
- Que bom, cara. Só Deus sabe que vocês poderiam ter ficado juntos muito antes disso, né?
- Bom, ela me disse que sempre deu mole pra mim, acredita?
- Não diiiiga - soei irônico e ele fez careta.
- Era tão óbvio assim?
- Você deveria precisar de óculos pra curar essa sua hipermetropia e miopia, porque de perto e de longe dava pra ver que ela sempre foi louca por você.
Bela
Eu estava triste com o Tom. Não entendi o motivo dessa palhaçada toda. Então vesti a minha máscara de felicidade e voltei pra sala, onde Soph e Flor jogavam uma caixa de coisas no chão.
- O que é isso?
- Fotoooos - Flor falou feliz e não tive coragem de dizer que não queria ficar vendo essas coisas.
Entenda, eu me odiava. Eu tinha um nariz estranho e graças a Deus o quebrei surfando. A prancha bateu nele. Só assim pra poder convencer minha irmã de que eu realmente precisava de uma cirurgia. Eu tinha ficado com um calombo imenso na ponte do nariz e ela não poderia negar isso. Por isso ver fotos antigas sempre me deixava meio deprê. Então eu só fingi participar e assim que as fotos acabaram, eu sugeri assistirmos a um filme.
- O que vocês querem ver?
- Nada triste, por favor, gente - pedi.
- Poxa, só porque eu queria ver "Um amor pra recordar"... - Flor fez bico.
- Vamos ver "17 outra vez" - Soph sugeriu - E assim a gente enche os olhos com o gatíssimo Zac.
Concordamos e eu fui fazer a pipoca.
- Porra Isabela, o que você está fazendo aí? - Soph perguntou por conta da demora.
Estava tão distraída que coloquei a pipoca com o plástico ainda, dentro do microondas.
- Tá pegando fogo!
Eu gritei desesperada e as duas vieram correndo..
- Cadê o extintor? - Flor salvadora pensou.
- Não tem, porra. Que casa que tem um extintor?
Então enquanto Flor e eu batíamos com cobertores no microondas, Soph ligava pra portaria pedindo ajuda.
- Não tá funcionando. Tá aumentando!
O fogo já estava em metade da cozinha e eu estava com muito medo. Mas logo o porteiro entrou correndo com um extintor na mão, conseguindo dizimar aquela labareda.
Soph sentou no sofá com o rosto enterrado nas mãos e chorou.
- Desculpa, Soph. Desculpa mesmo. Eu não tive a intenção, foi muito sem querer.
- Não pensa nisso agora não, Bela. Relaxa. Não tem problema.
Ela limpou as lágrimas e me abraçou.
- Que tal se continuarmos isso lá em casa? - Flor perguntou, intercalando o olhar entre nós duas.
- Por mim - Soph deu de ombros - Posso dormir lá hoje? Amanhã já deve estar melhor, mas com essa fumaceira toda fica difícil ficar aqui.
- Vocês vão ter que sair - o porteiro começou, mas ninguém deu atenção a ele - Srta. Harrison?
- Oi Jorge.
- Essa fumaça é muito da pirigosa. Vocês pricisam di sair daqui pra não sufocá.
Assentimos e Soph pegou o mínimo de roupa possível e saímos de lá. Foi aí que pensei que o Tom provavelmente estaria lá.
Thalia
Depois de me certificar que minhas amigas estavam bem, fui ao encontro do Harry. Era o dia de folga da Sam, mas ela foi encontrar com as meninas também lá na casa da Flor.
- Então já vou indo, meninas.
- Por que não fica aqui com a gente, Lia?
- Porque eu tenho um compromisso, meus amores.
- Duvido - Sam dramática começou - Você não gosta mais da gente, é isso. Você encontrou amigas melhores, não é?
Eu ri e balancei a cabeça.
- Se eu disser que sim vocês me deixam ir embora?
Elas riram e Sam fez bico.
- Você não me ama mais, né?
- Cala a boca, Sam. Claro que amo. Mas realmente tenho coisas pra resolver.
E dito isso, acenei e fechei a porta atrás de mim. Respirei fundo e sorri.
- Achei que não fosse aparecer - ele reclamou.
- Desculpe, foi uma emergência.
- Tá tudo bem?
- Um incêndio no apartamento da Sophia, mas todo mundo está bem sim.
Ele assentiu.
- Mas enfim, onde vamos?
- Ao meu lugarzinho especial.
- Own, que lindo! Ele tem um lugarzinho especial - zombei e ri.
- Pode rir o quanto quiser, mas é um lugar especial onde eu só levo pessoas especiais.
Parei de rir e o encarei, tentando decifrar se o que ele dizia era verdade.
- E como vamos?
Ele pareceu não ter pensado nisso. Eu não tinha carro, e ele não tinha dinheiro.
- Vamos de ônibus. Acho que sei um que passa lá.
Concordei e logo entramos no ônibus. Era estranho demais estar com ele e teve um momento em que um cara sentou ao meu lado, por pouco não sentando em cima do Harry. Não me contive e comecei a gargalhar.
- Quer me fazer rir? Pega na minha e balança - o cara se irritou e eu fiquei estupefata.
Quando ele foi levantar para sair de perto de mim, ele tropeçou e caiu, o que vi ser obra do Harry. Ele havia colocado o pé na frete do maluco e dado um empurrão nele.
- Malvado - sussurrei quando ele voltou a ocupar o seu lugar.
- Você viu o que ele fez? Um absurdo alguém falar isso pra uma mulher.
Sorri por ter sido defendida por ele.
- Esquece isso - sussurrei e coloquei minha mão sobre a sua, disfarçadamente. Logo ele colocou sua mão em minha perna e eu pude entrelaçar nossos dedos de forma sutil.
Quando estávamos quase chegando, ele levantou e quando eu vi que ia puxar a cigarra, corri para colocar a mão em cima da dele e fingir que eu havia puxado. Deu tempo, mas as pessoas agora olhavam para mim por conta do meu desespero.
- Esse lugar é lindo!
Eu não tinha palavras pra descrever. Era ainda na praia, mas um lugar totalmente deserto. Tinha árvores em volta, dando privacidade a quem estivesse por lá. A água era clara e agora continha um reflexo alaranjado do pôr-do-sol.
- Sabia que ia gostar;
- Como descobriu isso? - perguntei, já andando em direção à areia.
- Discuti com a minha mãe. Então peguei o carro dela e saí dirigindo sem rumo. Eu tinha só dezesseis anos. Nem podia dirigir ainda. Passei o dia todo aqui, me renovando. Quando cheguei em casa, ela brigou comigo de novo por ter pego o carro escondido.
Ele sorria de lado e eu sabia que ele daria tudo para ter a sua mãe brigando com ele novamente.
Abri a mochila com as coisas que ele havia separado e estendi uma toalha na areia, onde sentei prontamente. Passamos o final da tarde conversando, brincando, mergulhando e rindo. Saímos de lá às nove e eu não queria ter que ir embora. Queria poder ficar mais, e com isso percebi o quanto eu gostava dele. O quanto isso era inapropriado e o quanto eu sofreria quando ele finalmente morresse de vez. Esse pensamento me tirou uma lágrima, que passou despercebida por Harry.
Harry
Quando ela voltou do banheiro eu estava com a Polaroid dela na mão.
- Tira uma dúvida minha?
Ela se assustou e colocou a mão no coração.
- O que foi? - perguntei - Parece até que viu um fantasma!
Ela bateu no meu ombro e riu.
- Babaca.
- Tira uma foto nossa?
Ela pegou a câmera da minha mão e apontou para nós dois. Pela primeira vez, o flash não teve efeito sobre os meus olhos claros.
- Lia, vem ver a casinha de Barbie que mamãe me deu...
Alice entrou no quarto e ficou me encarando. Encarando a mim.
- Manhê, tem um menino no quarto da Thalia.
Olhei para ela espantado e logo ouvimos passos correndo.
- Que história é essa, Thalia?
- Não tem ninguém aqui, mãe. Não sei do que a Alice tá falando.
- Olha ele aqui mãe.
Ela apontava em minha direção e senti Thalia gelar.
- Não tem ninguém aí, minha filha - a mãe dela disse calmamente, mas seu semblante era de preocupação - Vem, vamos sair daqui e deixar sua irmã em paz.
Ela puxou a menina, que continuava olhando pra mim, triste. Tive vontade de me pronunciar só para não contrariá-la. Mas não adiantaria.
- Eu não to acreditando - Thalia sussurrou depois que sua mãe bateu a porta.
- Sua irmã pode me ver. Impressionante!
Ela enterrou o rosto nas mãos e eu sentei ao seu lado. Tirei suavemente suas mãos e as coloquei em seu colo, sentindo seu costumeiro tremor ao meu toque.
- A minha maldição passou pra minha irmã. Não consigo acreditar nisso. Ela vai sofrer tanto quanto eu sofri na vida.
- Não fale isso, Lia. Não é uma maldição.
- É sim! Como não seria? Ver o que os outros não veem? Ser chamada de maluca pelas pessoas que você mais ama...
- Sem esse dom - dei ênfase na última palavra - você não teria conhecido a mim.
Ela calou-se. Encostou sua cabeça em meus ombros e chorou de soluçar.
- Por que você está chorando, Lia?
- Porque eu gosto de você, Harry. E eu queria que não estivesse morto.
- Eu também, Thalia. Eu também.
Ela deitou a cabeça no meu colo e adormeceu. Saí debaixo e deitei ao seu lado, abraçando-a e me perdendo em pensamentos.
Quando voltei dos meus devaneios - que gostava de chamar de sonhos, já que não conseguia dormir - percebi que Thalia tremia em meus braços e me afastei prontamente. Ao olhar para baixo, percebi que eu me sentia mais vivo. Ou menos morto. Thalia estava gélida e tentei acordá-la. Nada adiantava. Ela não me atendia. Então apelei.
- Alice?
A menina de cabelos castanhos me olhou, arregalando ainda mais os seus olhos arredondados.
- Quem é você? - ela perguntou com a mão na cintura, gesto típico que sua irmã fazia quando se irritava. Ela me olhava com desconfiança e fascínio. Não sentia medo.
- Sou um amigo da sua irmã - eu disse apressado - ela está precisando da sua ajuda.
- Então vamos falar com a mamãe - ela resolveu.
- Ainda não podemos. Preciso que você não conte à ninguém que consegue me ver, ta bom? Preciso que você vá até o quarto da sua irmã e olhe bem pra ela. Depois vá até a sua mãe e diga que Thalia está passando muito mal, tá?
Ela assentiu obediente e fez exatamente o que lhe foi mandado. Logo estávamos no hospital e ela foi diagnosticada com Hipotermia Aguda.
Dougie
Assim que soubemos que Thalia estava no hospital, fomos correndo. Mas logo nos mandaram embora, porque ela não acordaria hoje e seu estado não era grave. Fomos todos para a casa do Tom e da Flor, esperar por notícias.
- Ei, sem caras feias - Soph falou e eu a abracei - O estado dela é estável e ela já está muito bem em temperatura normal.
- Então pode parando de chorar, Sam - Danny secou uma de suas mil lágrimas que insistiam em cair.
- Como alguém consegue ter hipotermia no Rio de Janeiro? - Flor perguntou indignada.
- Não faço a menor ideia - Tom respondeu -Tudo bem que estamos no Outono e tal, dá uma diminuída na temperatura. Mas se ela não ficou presa em algum congelador, nada explicaria.
- Na verdade - Bela começou com suas aulas de saúde - Ela pode ter Hipotermia Crônica. Ou ter sofrido acidentes e coisas assim.
Percebi o olhar que o Tom deu para ela. Era frio e irritantemente orgulhoso.
- Soph, vamos sair daqui?
Ela olhou para as meninas como se precisasse de confirmação. Elas assentiram.
- Gente - ela começou - Falo sério quando digo pra não ficarem tristes. A Lia vai ficar bem.
- É verdade.
Sam foi para o sofá com Danny, Flor foi junto para assistir televisão e Tom foi para o quarto sozinho, deixando Bela na sala incrédula. Quando chegamos no quarto de hóspedes, tirei meus sapatos e meias e olhei para Soph.
- Finalmente eu vou ter um tempo sozinho com a minha namorada.
Ela riu e me beijou com vigor.
- Doug...
Só isso. Ela só disse meu nome e eu já sabia o que queria dizer. Tirei a minha blusa e a joguei contra a cama. O estrondo deve ter sido audível da sala.
Investi contra seu pescoço e lá depositei centenas de beijos molhados que me molhavam cada vez mais. Finalmente quando não dava mais pra segurar, tirei sua roupa e ela me ajudou com a minha, juntando nossos corpos. Nossa primeira vez foi um fascínio e eu posso dizer com toda certeza que essa foi a melhor vez da minha vida. Nunca fui muito garanhão, mas não era tapado.
- Demais - foi tudo o que consegui dizer ao final, e Soph riu, me dando um beijo leve e se aconchegando perto de mim.
Sam
Danny e eu saímos de madrugada da casa do Tom. Não tinha graça ficar lá e não poder fazer sexo com meu namorado, já que estávamos na sala.
Assim que chegamos em casa, joguei a minha bolsa no sofá e saí correndo para me jogar na cama. Como sempre ele riu e veio correndo atrás de mim, se jogando contra o meu corpo.
- Quero ver você sair daí agora, Sam.
Eu me debatia e ele segurou a minha mão, impedindo que eu batesse nele.
- Vamos. Você não é foda? Não consegue sair de uma imobilização?
Eu sempre me vangloriava por ter feito judô quando era criança. Mas fala sério! Eu era criança.
-Me solta, Danny!
- Vai ter que conseguir sair.
Então eu usei o truque infalível, que era começar a me esfregar nele e fazer cara sexy tentando beijar seu pescoço e qualquer parte acessível. Percebi que ele estava se animando e logo me soltou.
- Assim não vale - disse antes de me dar um beijo.
- Danny, eu tenho uma surpresa pra você.
Ele sorriu feito criança e bateu palmas.
- O que é? É uma guitarra nova? É uma caixa de cereal de chocolate? É um jacaré de estimação?
Inflei as narinas e levantei a sobrancelha.
- Quando você fala assim eu lembro que você é retardado, amor.
- Para de graça que você me ama exatamente assim.
Sorri e dei um selinho em seus lábios.
- Não sai daí que eu já volto.
Fui até a sala, peguei a minha bolsa e fui ao banheiro. Eu tinha comprado um corselet vermelho para usar com ele e fui colocar tudo. Depois de pronta, com direito a maquiagem, calcinha fio dental e cinta liga, abri a porta e fiz a minha pose mais sexy no batente, chamando o seu nome.
- Danny.
Mas aí quando reparei, ele estava roncando. Roncando. Eu fiquei maior tempão me arrumando pra ele e quando chego aqui me deparo com o Belo Adormecido. O mundo realmente não é justo comigo. Dormi do jeito que estava e não sonhei.
Florence
Eu e Bela tivemos altos papos sobre relacionamentos e eu resolvi que ainda não estou pronta pra começar um. Sei lá, muito estresse.
- Sem contar que qual namorado ia querer sua namorada sendo modelo de calcinhas?
- Você foi contratada pra ser modelo de calcinhas? Que absurdo! Como assim não me contou?
Eu ri.
- Eu esqueci. Agora além de tirar fotos, eu também vou aparecer nelas.
Nunca sonhei em ser modelo. Mas apareceu esse bico e como ser fotógrafa no momento não está dando muito dinheiro, resolvi aceitar.
- Ai que inveja. Aposto que se eu fosse modelo de calcinhas o Tom ia me dar muito mais valor.
Ela tapou a boca e logo suspirou.
- Não adianta esconder nada de mim, Bela. Eu sei quando as coisas não estão certas com o Tom. E ele está tão diferente...
- Nem me fale. Quero muito de volta o cara por quem eu me apaixonei.
- Sei como é - soltei o ar lentamente - Sabe, to pensando em terminar com o Simon.
- Terminar? Por quê?
- Bom, ele é ciumento demais, sabe. E não é que eu não goste de ficar com ele, mas to querendo provar comida nova, entende? E toda essa marra de intelectualzinho já deu.
- Você já percebeu que todos os seus ficantes já rodaram menos o James?
- Como assim?
- Primeiro o Matt, aí você arrumou o Cris. Agora vai dar um pé na bunda do Simon. Mas isso fora os que vieram antes dele. E você continua com o James.
- Não é justo. O Matt voltou pra Alemanha, então não conta.
- Claro que conta, porque antes dele tiveram pelo menos uns oito desde que eu te conheço. E o querido James continua entre eles.
Pensei rapidamente no que ela havia dito e ainda assim percebi que não tinha como assumir um relacionamento.
- Não interessa. Não quero namorar. É só aborrecimento.
- Tudo tem seu tempo. Mas aposto que de nós cinco, você vai ser a primeira a casar.
- Sou cética quanto ao casamento.
- Você é cética quanto à tudo, Flor.
E rimos. Porque era quase verdade.
- Acredito na amizade e na família. Só.
Bela balançou a cabeça rindo, mas conheço minha amiga muito bem pra saber que as coisas não estavam um mar de rosas.
Fomos dormir sem mais tocar no assunto relacionamento, já que éramos duas traumatizadas.
Harry
Eu não saí do lado dela nem por um segundo enquanto dormia. Mas quando ela acordou eu saí de perto para que não me visse. Não queria que ela percebesse tudo. Ela com certeza faria associações que me incriminariam. O estranho de ser um fantasma perdido - como Thalia gostava de chamar os que continuavam nesse plano - era que eu conseguia sentir. Eu tinha emoções e no momento eu chorava. Chorava por saber que jamais a teria. E que eu gostava muito dela. E que ela nunca mais ia querer me ver. Então quando fui para a casa, encontrei Alice muito triste no quarto da Thalia e me assustei.
- Ela vai morrer? - Alice perguntou assim que me viu.
- Claro que não - sentei ao seu lado na cama - Ela está bem. Só está cansada e precisa dormir bastante pra ficar bem.
Ela sorriu triste.
- Foi minha culpa, não foi? Eu deixei a Lia triste porque falei que você estava aqui pra mamãe.
Minha vez de sorrir.
- Não foi sua culpa. Mas posso te dar um conselho?
Ela assentiu.
- Isso que você faz, de me ver, é um dom. E você não pode contar pra mais ninguém, entendeu? Só para a sua irmã.
Ela estava confusa e lágrimas brotavam em seus olhos.
- Por que não?
- Porque só você e sua irmã possuem esse dom. Então mais ninguém consegue ver as pessoas que vocês conseguem - fiz uma pausa enquanto ela digeria o que ouvira - Quando sua irmã voltar, peça pra ela te explicar direitinho tudo que ela fez com esse dom.
Ela sorriu de verdade agora.
- Você é namorado da Thalia?
Se eu pudesse, teria corado.
- Não. Sou um grande amigo dela.
Podia jurar que vi nos olhos daquela garotinha de sete anos malícia, como se não acreditasse em mim.
- Você me ajuda a escolher um presente pra Thalia?
- Um presente de namorado? - ela riu um riso igual ao da irmã mais velha.
- Não, bobinha. De amigo. Pra quando ela voltar pra casa. Sabe alguma coisa que ela goste muito?
Ela pensou um pouco e deu um gritinho.
- Thalia tem uma caixa onde ela guarda as coisas mais secretas dela. Uma vez eu quase abri e ela brigou comigo. Com certeza é a coisa que ela mais gosta no mundo.
Ela foi até o armário da irmã e abriu a porta, pedindo ajuda pra encontrar a caixa que estava na prateleira mais alta. Quando pegou, eu abri e continha apenas um cofre.
- É só isso? - desapontada, Alice deu de ombros e eu olhei mais um pouco antes de recolocar na estante. Reparei nos desenhos do cofre e no que ele provavelmente significava.
- Sua irmã só volta pra casa amanhã, não é?
Ela assentiu e saiu de perto, reclamando que precisava se arrumar para a escola. Olhei para o relógio de mesinha. Já era quase meio dia. Não sabia se daria tempo, mas eu precisava ir em busca do presente perfeito pra ela. Fui até o aeroporto e peguei o primeiro voo, me achando meio idiota por ser um fantasma em um avião.
Tom
Eu estava com muita raiva dela. Fui até a casa dela, sem me importar se Carol estaria lá. Bati na porta com força, mesmo sabendo que tinha campainha.
- Já vai - ouvi sua voz do lado de dentro. Menos de um minuto depois ela abriu.
- Ah, oi Tom - me abraçou - o que faz aqui?
- Você foi embora da minha casa sem se despedir de mim?
- Quando acordei você estava dormindo, então não quis te acordar...
- Você sabe que eu não teria me importado - falei rude.
- Quer saber? Não, não sei. Porque eu não sei o que aconteceu com você, mas definitivamente esse não é o Tom por quem me apaixonei. O Tom que eu amei por um ano. Sabe, toda essa frieza essas sua explosões estão me enchendo o saco. E essas manias de horários... Sabe o nome disso? TOC. Você tem transtorno obsessivo compulsivo. E é tratável, então por favor, arrume um especialista.
- Você quer saber o motivo de eu estar agindo assim?
- Por favor. Pode falar.
- Eu te traí, Bela.
Ela ficou sem palavras e na mesma hora eu comecei a chorar.
- Não fiz por mal. Foi noite dos caras e nós fomos a uma despedida de solteiro de um amigo nosso. Muitas mulheres davam em cima da gente, mas ignoramos todas. Até que eu encontrei uma ex namorada.
- Tom, por favor, eu não quero ouvir.
- Bela, escuta. Foi só um beijo. Ela me beijou. Eu não senti nada, eu juro.
- Tom, por favor - agora lágrimas caiam dos seus olhos e eu me martirizava por fazê-la sofrer.
- Por favor, Bela, eu preciso falar.
- Acho que eu já ouvi o suficiente, não é? Se tivesse me contado antes, eu poderia até pensar em te perdoar. Mas esquece, Tom. E caso não tenha ficado claro ainda, não somos mais namorados.
E então ela bateu a porta na minha cara, enquanto eu chorava copiosamente.
Thalia
Minha alta foi adiantada graças à minha melhora e cheguei em casa à noite. Pensei ter visto Harry no hospital quando acordei, mas não o vi desde então. Ele não estava no meu quarto, então imaginei que ele estivesse entediado e tinha ido dar uma volta. Mas as horas passavam e ele não aparecia. Consegui adormecer profundamente depois de dois pesadelos em que Harry passava para o outro plano astral e quando acordei de manhã, ainda não via sinal dele.
Tentei tirá-lo da minha cabeça, mas foi quase impossível.
- Aonde está indo, mocinha?
Minha mãe perguntou assim que eu abri a porta de casa.
- Trabalhar? - falei com um tom de obviedade.
- Claro que não. Você ganhou a semana de folga, pelo amor de Deus. Aproveite.
- Aproveitar o quê? Meus amigos ou estão trabalhando ou estudando. Não vou ficar em casa de molho.
- Thalia - minha mãe chamou em tom de advertência. Sentei ao seu lado no sofá.
- Mãe, vamos fazer o seguinte. Eu vou para o trabalho. Se eu passar mal, volto correndo pra casa, tá?
Sabendo que nada me faria mudar de ideia, ela concordou, ainda que relutante.
- Por Deus, Thalia. Quase morremos do coração.
- Eu estou bem, gente. Foi só um susto.
Florence e Sophia tinham acabado de chegar no bar e ali ficaram.
- Oi boa tarde - um cliente me chamou - vocês fazem vitamina aqui?
- Claro senhor - falei sorrindo, porque pelo menos alguém não era cachaceiro.
- Então bate uma pra mim com mamão?
Me senti altamente insultada e em um momento de fraqueza quis que Harry estivesse comigo para me defender como fizera com o cara do ônibus. Esse cliente ria e eu virei as costas, indo até as meninas contar o que tinha acontecido. Sam - que claramente não fazia questão de trabalhar, mas sim ficar na piscina fofocando - perguntou.
- Ué. E o que tem de extraordinário nisso?
- Sam, ele quis claramente dizer "bate uma pra mim com UMA MÃO".
- Ainda não entendi.
- Punheta, masturbar, colocar a mão no trombone e qualquer outro sinônimo que você quiser. Ele pediu pra Lia tocar uma pra ele, sacou?
- Ai que nooooojo - ela disse e nós rimos.
- Por isso pedi pro Estênio atender ele. Eu que não passo por lá mais.
- Típica piada de garçonete - Flor comentou, acendendo um baseado em plena luz do dia.
- Tá maluca? - Soph puxou da mão dela e apagou - Desde quando você fuma isso?
- Desde nunca, ué. Tava só experimentando.
- Flor - comecei - se quiser experimentar, faça isso em casa. Fica a dica.
- Ai gente que horror. O mundo está virando de cabeça pra baixo. Cruzes - Sam dramatizou - Quando for experimentar me chama?
- Foi mal. Era o único que eu tinha. Miguel me deu.
- Quem é Miguel?
- O substituto do Simon.
- Porra já?
- Já? Passei cinco horas com só dois maridos, ta louca? Preciso manter as aparências.
Ela começou a rir e eu balancei a cabeça, saindo de perto. Alguém tem que trabalhar.
Bela
Eu odiava o Tom! Odiava com todas as minhas forças! Eu não tinha conseguido dormir. Passei a noite inteira chorando e assim que o sol começou a sair, fui surfar. As lágrimas idiotas que caíam conseguiam se misturar com a água do mar. Às vezes não enxergava nada, só borrões. Eu queria que tudo acabasse. Peguei ondas como nunca tinha feito na minha vida. Eu só pensava em remar atrás de desafios pra esquecer tudo o que tinha acontecido.
- Vai com calma, Bela.
Eu ofegava e James já me olhava perturbado.
- Me deixa, James.
- Vamos, Bela. Vamos sair um pouco. Vamos comer uma empada, um pastel, sei lá. Bela, você está no mar desde cedo.
- Não enche.
- Sai que essa onda é minha.
Ele saiu na minha frente e conseguiu pegar a minha onda. Irritada, remei forte até a próxima onda. Peguei uma onda linda, eu estava me sentindo infinitamente melhor. Até que tudo apagou.
Abri os olhos devagar, com muita dificuldade e logo um menino se aproximou.
- Bela?
Haviam oito pessoas em uma sala estranha, que não reconheci.
- Oi?
- Você está bem?
Era uma menina de cabelos loiros que perguntava.
- Onde é que eu estou?
- No hospital. Você se machucou surfando.
Agora uma menina que estava de biquíni por baixo de um roupão falava.
- Quem são vocês? O que eu estou fazendo aqui?
Tom
Meu mundo caiu e eu não sabia o que fazer.
- Você não lembra da gente? - Sam perguntou, já começando a chorar.
Bela balançou a cabeça em negação, parecendo confusa.
- Eu deveria lembrar?
Nesse momento Sam começou a chorar e Thalia a abraçou.
- Somos seus melhores amigos, Bela - Flor tentou, mas Bela negou novamente.
- Desculpe.
- Nem de mim você lembra? - perguntei, já sabendo a resposta.
Ela olhou fixamente e não disse nada por alguns segundos. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu me afastei enquanto ela fechava os olhos.
- Hora de irem embora - uma enfermeira irrompeu o aposento, assustando a todos - Como está, querida?
Ela perguntou pra Bela que só assentiu.
- Ela não se lembra de nada - Danny falou e então Sam chorou mais ainda.
A enfermeira esperou alguma confirmação da Bela, que só deu de ombros.
Logo Carol, a irmã dela entrou no quarto já chorando e a abraçou.
- Graças a Deus você está bem!
Então ela pareceu notar os olhares tristes - na verdade o choro soluçante da Sam - e franziu o cenho.
- Você está bem, não está?
- Aparentemente ela perdeu a memória. Vamos fazer alguns exames e...
- Não perdi. Eu lembro de você, oras. É a minha irmã.
Carol suspirou aliviada mas logo depois fechou os olhos.
- Não lembra dos seus amigos?
Ela negou pelo que pareceu a décima vez em menos de dez minutos e meu coração afundou mais.
- Não lembra do seu namorado? - Carol perguntou, apontando pra mim.
- Namorado?
- Ex - Doug falou no momento em que assenti e eu o fuzilei com o olhar.
- Ex? - Carol perguntou.
- Longa história - respondi.
- Detesto interromper, mas vou permitir somente que a irmã fique - a enfermeira voltou a falar - Precisamos fazer uns exames e entender qual a extensão da sua perda de memória. Precisamos ver se será reversível ou não.
- Tem a possibilidade de não ser reversível? - perguntei
A enfermeira assentiu e eu comecei a chorar. Fomos expulsos do quarto e obrigados a esperar por notícias em nossas casas. Fomos todos para o apartamento da Sophia, mas quase não interagíamos. Estávamos em choque.
Danny
- Não vou me acostumar com essas idas ao hospital.
- Não queira se acostumar - Soph falou e nos calamos.
- Vou preparar um lanche, alguém quer?
Todos assentiram, menos o Tom. Ele estava sentado sozinho chorando desde que chegamos em casa.
- Alguém me ajuda, por favor?
Sam e Lia levantaram pra me ajudar.
- Vou fazer um para o Tom também - Lia se referia ao sanduíche que estávamos fazendo - ele precisa comer.
- Vou fazer o favorito dele - pensei - Pão de forma, pasta de amendoim e banana.
- Danny? - Sam me chamou rindo.
- O quê?
- Esse é favorito do Elvis.
Thalia começou a rir, mas pareceu inapropriado então ela parou.
- É tão chato isso... - Lia lamentou.
- O quê? - perguntei.
- Me sinto culpada por me divertir. Tanta coisa ruim acontecendo na minha vida e quando eu me divirto, penso não ser apropriado pra ocasião.
- Lia - Sam a abraçou - Não tem muito o que a gente possa fazer. Ela agora está dependendo apenas dos médicos. E honestamente, se ela não recuperar a memória - Deus me livre - a gente não vai poder ficar triste pra sempre. Vamos ter que reconquistá-la pra que volte a ser nossa amiga.
Olhei para Thalia e sorrimos.
- Quando foi que você amadureceu assim?
Sam deu de ombros e quando terminamos os sanduíches, levamos para a sala e comemos em silêncio.
Florence
- Agora que vi, Soph. Você já conseguiu arrumar a sala?
- Bom, quando eu fui pra sua casa, liguei pro decorador e pedi pra ele organizar tudo na minha ausência.
- Que inveja de você. Você tem um decorador - Sam bufou e Soph sorriu.
- Posso pedir pra ele ir na sua casa se quiser.
- Sério - vi os olhinhos dela brilharem, mas logo passou - Ah, mas eu não teria dinheiro pra comprar o que ele quisesse colocar lá.
- Eu tenho uma notícia pra vocês - resolvi contar logo pra todos - Vou ser modelo.
- Que máximo, Flor - Danny falou.
- Uau.
- Que legal! - Soph exclamou - Me leva pra ver.
- Se você não se sentir desconcertada - ri - Vou ser modelo de lingerie.
Todos se calaram e eu fiz bico.
- Poxa. Bom ver que vocês me apoiam.
- Claro que não, Flor. Foi inesperado.
- É. Se fosse a Thalia, a gente entendia.
- Como assim eu? - ela perguntou indignada.
- Cara, você trabalha de biquíni - Doug respondeu.
- Não quer dizer que eu goste disso - ela ficou emburrada e o assunto logo morreu.
Acordamos com o telefone do Tom tocando. Estávamos esparramados pelo sofá e tapete enquanto o Tom continuava sentado na mesma cadeira. Pelo menos agora o seu sanduíche já tinha sido mordido.
- Ok. Estou indo - ele desligou o telefone e já ia saindo de casa.
- Vai aonde?
- Ver a Bela. Ela pediu pra falar comigo.
- Vou também.
- Carol disse pra eu ir sozinho. Desculpa, irmãzinha.
- Entendo. Você vai ficar bem? - beijei sua cabeça e olhei naqueles olhos apáticos.
Ele apenas me olhou antes de ir embora.
- Tenho que ir, Flor - Thalia foi a primeira a se pronunciar - Preciso trabalhar cedo amanhã.
Logo depois, todos foram embora também, me deixando sozinha, mas pedindo pra avisar assim que tivesse notícias. Não queria ficar sozinha.
- Alô, James? O que acha de passar aqui agora?
Thalia
Quando cheguei em casa, ainda não tinha nenhum sinal do Harry. Estava tão cansada que dormi sem sonhar. Ainda estava me sentindo um pouco fraca, mas acordei de madrugada e não consegui voltar a dormir.
- Thalia?
- O que você está fazendo aqui?
Pisquei repetidas vezes a fim de saber se eu estava inventando aquela imagem.
- Não pensou que eu iria embora sem me despedir de você, pensou?
Sorri, mas não consegui fazê-lo por muito tempo.
- Você vai embora mesmo?
Ele não respondeu, mas pegou um embrulho e me entregou.
- É um presente de boas vindas. Está se sentindo melhor?
Assenti e peguei o embrulho. Abri. Era um caderno com a torre Eiffel na capa.
- Pra quando você for a Paris, escrever tudo, assim você nunca vai esquecer do seu sonho.
Eu devo ter ficado muito vermelha, porque eu estava com muita raiva.
- Você mexeu nas minhas coisas?
Ele recuou.
- Na verdade sua irmã estava aqui e ela me contou sobre o baú, então eu pensei que...
- Pensou errado.
Ficamos em silêncio enquanto eu digeria tudo aquilo.
- Por que você esconde isso? O seu sonho de ir a Paris.
- Porque eu não vou conseguir realizá-lo tão cedo. Harry, eu trabalho pra começar a estudar. Não quero me encher de esperança e me decepcionar depois.
Ele abaixou a cabeça e eu ainda encarava o presente.
- Mas obrigada - senti que deveria agradecer.
- Tem mais uma coisa...
Olhei pra ele, esperando.
- Era primavera na França, então eu trouxe pra você...
Ele não terminou de falar, mas me entregou diversas flores juntas por um raminho verde.
Sorri. Senti seu aroma e não parecia nada que eu já tivesse sentido antes. Tinha cheiro de... Paris!
Semanas se passaram e Harry aparecia cada vez menos na minha casa. Não sabia o que estava acontecendo e toda vez que eu perguntava ele desconversava. Comecei a pensar em teorias absurdas. Desde que ele não suportava mais a minha presença até o fato dele ter um caso - caso por que? Ele não é comprometido - com outra pessoa. O que óbvio é um absurdo, já que ele é um fantasminha. A não ser que ele tenha encontrado outra pessoa com o mesmo dom que eu...
Bela
Tom é muito legal. Ele vinha sempre me ver no hospital e me contava histórias dos nossos - aparentemente - amigos. Os outros vieram me visitar as vezes, mas era constrangedor porque eu não consigo lembrar deles. Mas eles são muito legais também, e parecem mesmo o tipo de amigos que eu escolheria para serem meus. Agora eu já não estou mais no hospital, mas ainda tenho que ir lá toda semana fazer exames e acompanhamento psicológico. Tom e Carol sempre vão comigo.
- Faz um esforço, Bela. Qual a sua última lembrança dessa vez?
Era engraçado. Toda vez que a psicóloga perguntava isso eu podia sentir o Tom se enrijecer ao meu lado.
- Ainda o meu aniversário de treze anos. Tinha palhaços, mas eu os detesto. Tinha um pula pula que eu achei super infantil e reclamei com a minha mãe. Mas ao final da festa, fui a que mais pulou.
Eu tinha adorado esse aniversário e de certa forma, ficava feliz por ter sido a minha última lembrança. Tom me contou o que aconteceu entre nós dois. Não acreditei em como não fui compreensiva, mas ele disse que eu tinha esse direito.
- Agora quero falar só com a Bela, por favor.
Sempre a mesma coisa. Primeiro nós três éramos chamados para entrar na sala e depois os outros dois me deixavam sozinha.
- Como passou a semana, querida?
- Bem. Eu estou começando a gostar desses meus amigos.
- Que bom.
Pausa desconfortável.
- Bela, querida. Não estamos vendo nenhum progresso no seu tratamento, mas ainda vamos persistir, ta?
Assenti, ficando triste.
- Na próxima consulta quero que traga um amigo diferente. E peça pra ele trazer fotos, vídeos, o que tiver. Será assim pelos próximos três meses.
- Sem problema.
Ao final da consulta, saí pensando em quem levaria na semana seguinte. Acho que a irmã do Tom.
Sophia
Eu odeio o meu pai. Como ele consegue ser tão idiota? Acabou de me ligar dizendo que eu teria que passar as férias de Julho sozinha. Juro que não sei como ele consegue acabar com o meu bom humor tão rápido.
- Eu vou te recompensar, filha - ele disse. Mas normal, ele sempre dizia isso.
- Tá Senador, tanto faz.
Adorava chamá-lo assim. Não tinha nada no mundo que ele odiasse mais. Não que eu fizesse muita questão de viajar com ele, já que só o que ele conseguia conversar comigo era sobre a minha faculdade e política. Ele nem sabe que eu namoro o Doug.
Ele se despediu e desligamos.
- Alô, Doug. Tá afim de uma viagem pra New York?
Harry
Eu passava o meu tempo livre - leia-se o tempo todo - viajando por aí. Era ridículo pensar que eu tinha que pegar avião pra viajar. Todos os fantasmas que conheço - não que eu realmente conheça algum, mas to falando de filmes e essas coisas - conseguem se teletransportar. Eu ainda não entendia o que eu era.
- Bom dia, dorminhoca.
Thalia estava atrasada e resolvi dar uma mãozinha acordando-a para trabalhar.
- Harry! É meu dia de folga!
Ela gritou e jogou o travesseiro em mim. E passou direto. Na verdade, eu tentei fugir e percebi que tinha sumido. Eu desapareci. E Thalia nem percebeu.
- Desculpe, Lia - não acreditava que já tinha uma semana que eu não a via - Estava com saudades.
Ela grunhiu e pegou o outro travesseiro para cobrir o rosto.
- Ei! O que foi?
- Você estava com saudades, é? - ela estava brava. Muito brava. - Sabe o que é me deixar uma semana sem saber de você? Uma semana achando que você foi embora?
- Desculpa, Lia - encostei em seu braço e a sua reação a mim fez com que eu me afastasse.
- Você não gosta mais de ficar comigo, é isso? Cansou?
- Sim, quero dizer, não. Não cansei de você. Canso de ficar sozinho aqui sem fazer nada.
Ela me olhou e vi que chorava. Tentei limpar sua lágrima, mas no meio do caminho desisti.
- Você nem encosta em mim mais - ela fechou os olhos e eu também, mas logo os abri, seguido por ela - Quer que eu saia da sua vida, Harry?
Sabia que a pergunta dela era vazia. Ela não queria dizer aquilo. Mas era a minha chance. Eu não poderia deixá-la viver normalmente enquanto eu não arrumasse um jeito de morrer. E deixá-la pra sempre.
- Sim - respondi sem emoção, mas me controlando por dentro - Não quero mais ter você por perto. Só fico aqui porque além da sua irmã, é a única que me vê. Mas eu tenho muito mais pra aproveitar que ficar sentado aqui esperando você voltar do trabalho e me contar seu dia.
Fechei os olhos pra evitar vê-la. Sua expressão era de tristeza e decepção, mas ela logo se recompôs.
- Então vai embora, Harry. Se é assim que se sente, vá embora. Mas não ouse me procurar mais.
Ela pegou o caderno que eu havia dado e jogou em mim. Novamente, passou direto e caiu no canto do quarto. E eu olhei para o seu rosto uma última vez e desapareci.
Sam
- Ai férias, como eu te amo!
- Me amar que é bom nada, né?
- Cala a boca Danny. Você sabe que eu tenho minhas preferências, e trabalhar não é uma delas.
- Me pergunto quando você vai arrumar um emprego decente.
- Esse emprego paga as minha contas, então está ótimo pra mim.
- Não paga não! E você sabe disso. Eu pago todas as contas lá de casa.
- Mas as minhas contas eu que pago! - falei emburrada - Compras, saídas...
- Cara, Sam, desisto de você...
Ele levantou da cama e foi andando até o banheiro.
- Ué, ta indo aonde?
- Tenho ainda a última prova na faculdade. Sabe, alguém tem que estudar pra conseguir colocar dinheiro nessa casa.
Fiquei calada. Era muito chato ouvir ele falando assim de mim. Não é que eu não gostasse de ter o meu próprio dinheiro, mas era muito mais legal deixar o Danny me bancar...
Doug
- NY? - Tom perguntou espantado.
- Quem vai pra New York?
- Deixa de ser fofoqueira, Flor!
- Eu e a Sophia - respondi depois de rir.
- Ah, me leva junto? Quero muito ir.
- Vai ficar de vela, sua lesada?
- Não, querido irmão. Vou chamar alguém pra ir comigo.
- Deixa eu adiantar pra você e diminuir a sua lista já. Thalia e Sam não vão. Danny não vai sem a Sam. Bela não vai querer viajar com um bando de desconhecidos.
Resumi impressionado por ter lembrado de tudo.
- Isso me faz ter que recorrer aos backups.
- Flor, quando você vai aprender a dar valor às pessoas que gostam de você?
- Querido irmão, você tem muito o que aprender. Eles não gostam de mim. É puro sexo.
- Muito legal ouvir minha irmã falando isso - Tom resmungou.
- Você só pode estar de sacanagem, né, Flor?
Comecei a falar, mas Tom me interrompeu.
- Cara, desiste. Esse tipo de coisa a gente nem discute mais. Não adianta falar com quem não quer ouvir.
- Como assim você pode achar que um cara está com você há mais de nove meses e é puro sexo? - ignorei o Tom - Cara, isso não existe.Thalia
Quando cheguei em casa, ainda não tinha nenhum sinal do Harry. Estava tão cansada que dormi sem sonhar. Ainda estava me sentindo um pouco fraca, mas acordei de madrugada e não consegui voltar a dormir.
- Thalia?
- O que você está fazendo aqui?
Pisquei repetidas vezes a fim de saber se eu estava inventando aquela imagem.
- Não pensou que eu iria embora sem me despedir de você, pensou?
Sorri, mas não consegui fazê-lo por muito tempo.
- Você vai embora mesmo?
Ele não respondeu, mas pegou um embrulho e me entregou.
- É um presente de boas vindas. Está se sentindo melhor?
Assenti e peguei o embrulho. Abri. Era um caderno com a torre Eiffel na capa.
- Pra quando você for a Paris, escrever tudo, assim você nunca vai esquecer do seu sonho.
Eu devo ter ficado muito vermelha, porque eu estava com muita raiva.
- Você mexeu nas minhas coisas?
Ele recuou.
- Na verdade sua irmã estava aqui e ela me contou sobre o baú, então eu pensei que...
- Pensou errado.
Ficamos em silêncio enquanto eu digeria tudo aquilo.
- Por que você esconde isso? O seu sonho de ir a Paris.
- Porque eu não vou conseguir realizá-lo tão cedo. Harry, eu trabalho pra começar a estudar. Não quero me encher de esperança e me decepcionar depois.
Ele abaixou a cabeça e eu ainda encarava o presente.
- Mas obrigada - senti que deveria agradecer.
- Tem mais uma coisa...
Olhei pra ele, esperando.
- Era primavera na França, então eu trouxe pra você...
Ele não terminou de falar, mas me entregou diversas flores juntas por um raminho verde.
Sorri. Senti seu aroma e não parecia nada que eu já tivesse sentido antes. Tinha cheiro de... Paris!
Semanas se passaram e Harry aparecia cada vez menos na minha casa. Não sabia o que estava acontecendo e toda vez que eu perguntava ele desconversava. Comecei a pensar em teorias absurdas. Desde que ele não suportava mais a minha presença até o fato dele ter um caso - caso por que? Ele não é comprometido - com outra pessoa. O que óbvio é um absurdo, já que ele é um fantasminha. A não ser que ele tenha encontrado outra pessoa com o mesmo dom que eu...
Bela
Tom é muito legal. Ele vinha sempre me ver no hospital e me contava histórias dos nossos - aparentemente - amigos. Os outros vieram me visitar as vezes, mas era constrangedor porque eu não consigo lembrar deles. Mas eles são muito legais também, e parecem mesmo o tipo de amigos que eu escolheria para serem meus. Agora eu já não estou mais no hospital, mas ainda tenho que ir lá toda semana fazer exames e acompanhamento psicológico. Tom e Carol sempre vão comigo.
- Faz um esforço, Bela. Qual a sua última lembrança dessa vez?
Era engraçado. Toda vez que a psicóloga perguntava isso eu podia sentir o Tom se enrijecer ao meu lado.
- Ainda o meu aniversário de treze anos. Tinha palhaços, mas eu os detesto. Tinha um pula pula que eu achei super infantil e reclamei com a minha mãe. Mas ao final da festa, fui a que mais pulou.
Eu tinha adorado esse aniversário e de certa forma, ficava feliz por ter sido a minha última lembrança. Tom me contou o que aconteceu entre nós dois. Não acreditei em como não fui compreensiva, mas ele disse que eu tinha esse direito.
- Agora quero falar só com a Bela, por favor.
Sempre a mesma coisa. Primeiro nós três éramos chamados para entrar na sala e depois os outros dois me deixavam sozinha.
- Como passou a semana, querida?
- Bem. Eu estou começando a gostar desses meus amigos.
- Que bom.
Pausa desconfortável.
- Bela, querida. Não estamos vendo nenhum progresso no seu tratamento, mas ainda vamos persistir, ta?
Assenti, ficando triste.
- Na próxima consulta quero que traga um amigo diferente. E peça pra ele trazer fotos, vídeos, o que tiver. Será assim pelos próximos três meses.
- Sem problema.
Ao final da consulta, saí pensando em quem levaria na semana seguinte. Acho que a irmã do Tom.
Sophia
Eu odeio o meu pai. Como ele consegue ser tão idiota? Acabou de me ligar dizendo que eu teria que passar as férias de Julho sozinha. Juro que não sei como ele consegue acabar com o meu bom humor tão rápido.
- Eu vou te recompensar, filha - ele disse. Mas normal, ele sempre dizia isso.
- Tá Senador, tanto faz.
Adorava chamá-lo assim. Não tinha nada no mundo que ele odiasse mais. Não que eu fizesse muita questão de viajar com ele, já que só o que ele conseguia conversar comigo era sobre a minha faculdade e política. Ele nem sabe que eu namoro o Doug.
Ele se despediu e desligamos.
- Alô, Doug. Tá afim de uma viagem pra New York?
Harry
Eu passava o meu tempo livre - leia-se o tempo todo - viajando por aí. Era ridículo pensar que eu tinha que pegar avião pra viajar. Todos os fantasmas que conheço - não que eu realmente conheça algum, mas to falando de filmes e essas coisas - conseguem se teletransportar. Eu ainda não entendia o que eu era.
- Bom dia, dorminhoca.
Thalia estava atrasada e resolvi dar uma mãozinha acordando-a para trabalhar.
- Harry! É meu dia de folga!
Ela gritou e jogou o travesseiro em mim. E passou direto. Na verdade, eu tentei fugir e percebi que tinha sumido. Eu desapareci. E Thalia nem percebeu.
- Desculpe, Lia - não acreditava que já tinha uma semana que eu não a via - Estava com saudades.
Ela grunhiu e pegou o outro travesseiro para cobrir o rosto.
- Ei! O que foi?
- Você estava com saudades, é? - ela estava brava. Muito brava. - Sabe o que é me deixar uma semana sem saber de você? Uma semana achando que você foi embora?
- Desculpa, Lia - encostei em seu braço e a sua reação a mim fez com que eu me afastasse.
- Você não gosta mais de ficar comigo, é isso? Cansou?
- Sim, quero dizer, não. Não cansei de você. Canso de ficar sozinho aqui sem fazer nada.
Ela me olhou e vi que chorava. Tentei limpar sua lágrima, mas no meio do caminho desisti.
- Você nem encosta em mim mais - ela fechou os olhos e eu também, mas logo os abri, seguido por ela - Quer que eu saia da sua vida, Harry?
Sabia que a pergunta dela era vazia. Ela não queria dizer aquilo. Mas era a minha chance. Eu não poderia deixá-la viver normalmente enquanto eu não arrumasse um jeito de morrer. E deixá-la pra sempre.
- Sim - respondi sem emoção, mas me controlando por dentro - Não quero mais ter você por perto. Só fico aqui porque além da sua irmã, é a única que me vê. Mas eu tenho muito mais pra aproveitar que ficar sentado aqui esperando você voltar do trabalho e me contar seu dia.
Fechei os olhos pra evitar vê-la. Sua expressão era de tristeza e decepção, mas ela logo se recompôs.
- Então vai embora, Harry. Se é assim que se sente, vá embora. Mas não ouse me procurar mais.
Ela pegou o caderno que eu havia dado e jogou em mim. Novamente, passou direto e caiu no canto do quarto. E eu olhei para o seu rosto uma última vez e desapareci.
Sam
- Ai férias, como eu te amo!
- Me amar que é bom nada, né?
- Cala a boca Danny. Você sabe que eu tenho minhas preferências, e trabalhar não é uma delas.
- Me pergunto quando você vai arrumar um emprego decente.
- Esse emprego paga as minha contas, então está ótimo pra mim.
- Não paga não! E você sabe disso. Eu pago todas as contas lá de casa.
- Mas as minhas contas eu que pago! - falei emburrada - Compras, saídas...
- Cara, Sam, desisto de você...
Ele levantou da cama e foi andando até o banheiro.
- Ué, ta indo aonde?
- Tenho ainda a última prova na faculdade. Sabe, alguém tem que estudar pra conseguir colocar dinheiro nessa casa.
Fiquei calada. Era muito chato ouvir ele falando assim de mim. Não é que eu não gostasse de ter o meu próprio dinheiro, mas era muito mais legal deixar o Danny me bancar...
Doug
- NY? - Tom perguntou espantado.
- Quem vai pra New York?
- Deixa de ser fofoqueira, Flor!
- Eu e a Sophia - respondi depois de rir.
- Ah, me leva junto? Quero muito ir.
- Vai ficar de vela, sua lesada?
- Não, querido irmão. Vou chamar alguém pra ir comigo.
- Deixa eu adiantar pra você e diminuir a sua lista já. Thalia e Sam não vão. Danny não vai sem a Sam. Bela não vai querer viajar com um bando de desconhecidos.
Resumi impressionado por ter lembrado de tudo.
- Isso me faz ter que recorrer aos backups.
- Flor, quando você vai aprender a dar valor às pessoas que gostam de você?
- Querido irmão, você tem muito o que aprender. Eles não gostam de mim. É puro sexo.
- Muito legal ouvir minha irmã falando isso - Tom resmungou.
- Você só pode estar de sacanagem, né, Flor?
Comecei a falar, mas Tom me interrompeu.
- Cara, desiste. Esse tipo de coisa a gente nem discute mais. Não adianta falar com quem não quer ouvir.
- Claro que existe. Se da minha parte é só sexo, da deles teoricamente deveria ser também.
- Duvido - resmunguei.
- Doug, vai cuidar da sua vida e deixa que da minha decido eu, tá?
- Não ta mais aqui quem falou - dei de ombros - mas depois não venha correndo chorar no meu ombro dizendo que eu estava certo quando você estiver morando sozinha em um apartamento com setenta gatos e uma lebre.
- Por que uma lebre? - Tom perguntou.
- Sei lá. Eu gosto de falar lebre. Fala lebre rápido sete vezes dando pulinhos em um pé só.
- O que é isso? Uma simpatia? - Flor riu e fechou a porta depois de sair de casa.
- Não é simpatia. Só é legal - dei de ombros para uma porta fechada e Tom riu.
Tom
Levei a Bela pra sair naquela noite. Fomos até a DAN. Queria mostrar o lugar que mais frequentávamos. Só que infelizmente, naquela noite a boate estava reservada, então tive que levá-la a um barzinho qualquer.
- Tom, você é muito engraçado - ela riu da minha piada do pão com mortadela e o sapato redondo.
- Você já ouviu todas essas piadas - falei, feliz por ela ainda achar graça de mim.
- Nananananana nananananananananana.
Ela começou a cantarolar a música que tocava ao fundo. "Agora eu era herói e o meu cavalo só falava inglês..."
- A Flor ia gostar de estar aqui agora.
Franzi o cenho.
- Por quê?
- Porque essa é a música favorita dela.
- Como você sabe?
Ela pareceu pensar.
- Não sei. Eu simplesmente...sei.
- Bela!
Levantei e fui até o seu lado e estalei um beijo na sua bochecha.
- Significa que você lembrou!
Eu estava feliz. Eu estava em êxtase. Eu estava sonhando com o dia que ela apontaria alguma melhora.
- Será? - ela parecia surpresa.
- De que outra forma você saberia?
Ela sorriu. E eu me aproximei. E a beijei. Talvez o maior erro da minha vida.
- Tom, eu...
- Desculpa, Bela. Eu não tive a intenção, eu...
- Eu acho que vou embora.
Então ela pegou sua bolsa e se dirigiu a saída. Joguei trinta reais na mesa e saí atrás dela.
- Bela, espera! - gritei enquanto a via apressar os passos.
- Ei - toquei seu ombro quando a alcancei e vi que chorava - O que houve?
- Eu to tentando, Tom! Eu to tentando mais que tudo no mundo lembrar das coisas. Mas eu não consigo - ela chorava cada vez mais - E o fato de eu gostar de passar tanto tempo com você, é porque eu gostei da nossa história da forma como você me contou, e desde então eu venho tentando lembrar como era amar você. Eu venho tentando amar você.
Fiquei em silêncio, apenas observando e esperando o "mas" que viria a seguir.
- Mas eu não consigo. Eu não consigo amar você.
E então ela virou, ainda chorando e entrou em um táxi que estava parado, enquanto eu deixava que as lágrimas lavassem o meu rosto.
Thalia
Não sei se era possível ficar doente de tristeza, mas eu tinha ficado. Passei a minha folga doente, por isso pedi pra faltar no dia seguinte.
- Lia? - Alice tímida entrou no meu quarto, olhando para baixo.
- Que foi?
Estava cansada e tinha passado a noite em claro, chorando.
- Você vai ficar bem?
Abri os braços pra que ela viesse pra perto de mim e a abracei.
- Vou sim, bebê.
- Não sou mais um bebê - ela reclamou, como sempre fazia.
- Vai ser pra sempre o bebezinho da irmã, que eu limpei muita meleca e troquei muita fralda.
- Eeeeca!
Ficamos abraçadas, mas sabia que ela ainda tinha alguma coisa pra falar.
- Ele foi embora, não foi?
Assenti.
- Você vai sentir saudades dele?
Sorri. Eu já sentia. Era horrível pensar que não o veria mais.
- Muitas saudades, Lili.
- Eu também.
Olhei para ela, tentando entender.
- Ele era meu amigo também. Ele vinha me visitar e conversava comigo. Sabia que ele gosta muito de você?
- Não gosta, Lili. Ele provavelmente não aguentava mais me ver.
Como doía pensar nisso. Falar era quase como se arrancassem meu coração.
- Ele sempre me disse que você era a melhor amiga dele.
Encostei a cabeça no travesseiro, olhando pra cama acima, onde ele costumava ficar.
- Me leva pra passear?
Ela estava chorosa, e eu percebi que ela realmente tinha se apegado ao Harry.
- Onde você quer ir?
Ignorei todas as minhas dores emocionais, ao ver que minha pequena estava sofrendo também. Levantei e calcei um chinelo.
- Quero ver o Harry - e então uma lágrima apareceu em seu rostinho miúdo.
- Eu também, Lili.
Segurei sua mão e fui me arrumar. Levei-a a um parque onde ela poderia se distrair um pouco e esquecer dele. Fomos em todos os brinquedos que ela podia entrar. Nenhuma de nós duas fez questão de sequer mencionar o Túnel Fantasma.
Soph
Dois dias pra minha viagem com o Doug. Acabou que a Flor chamou o Jon - sim, o nome dele era Jon e ele era o substituto do Cris. Eles iriam em outro voo, um dia depois porque o nosso já estava lotado. Eu estava tão feliz porque meu Doug estava radiante. Ele nunca havia ido pra NY - já era a minha sexta vez - e queria conhecer tudo. Ficaríamos só uma semana porque eu não tinha saco de ficar muito mais que isso. Já estava começando a perder a graça.
- Levo roupa de frio?
- Amor, é verão lá.
- Mas e se fizer frio?
- Leva uma blusa de manga comprida que é o suficiente.
- Mas você sabe que eu sou friorento, né?
- Então leva um casaco, ué.
- Mas aí vai ocupar muito espaço na mala.
- Mala tá sendo você, Doug!
- Desculpe - ele abaixou a cabeça e se concentrou na arrumação da mala.
- Não - me senti culpada - eu que peço desculpas.
- Não, sei que estou muito empolgado, é que...
- Eu sei. Lembro como foi da primeira vez que eu fui. Mas confia em mim. Leva só uma blusa de manga comprida que se sentir frio a gente compra um casaco lá, tá?
- Tá bom - ele se animou um pouco mais e conseguimos finalmente terminar de arrumar tudo. A minha mala já estava pronta.
- Agora é só esperar chegar o dia da viagem - ele sorriu e eu o beijei.
- Que bom que você está animado - falei.
- Você não está nem um pouquinho, não é? - ele murchou.
- To sim. É que estou pensando em outras coisas. Como por exemplo, já percebeu que a Lia sumiu do nada?
- Ela não sumiu. Continuo encontrando com ela às vezes lá embaixo quando venho te ver, ou passando por algum lugar.
- Não, eu sei. Ela só... sei lá. Está distante.
- Já tentou conversar com ela?
Eu ri.
- Até parece que não conhece a Thalia. Quando ela quer conversar, ela que vem procurar a gente...
Bela
Eu não quis sair de casa na semana que se passou. Não atendi a nenhum telefonema e a única pessoa com quem eu falei além da minha irmã foi com a Flor, por mensagem, que me avisou que não poderia ir comigo porque estaria viajando. Chorei muito. Resolvi chamar a Sam. Ela topou.
- Você precisa sair, Bela - Carol estava muito preocupada comigo.
- Não quero. Agora só saio depois de amanhã, pra ir pra psicóloga.
- Mas Bela, você não está nem conseguindo dormir. Vai dar uma volta. Vai conversar com as suas amigas.
- Elas não são minhas amigas, Carol. Não são.
Eu não entendia porque isso tinha acontecido comigo. Mas prometi a mim mesma que nunca mais entraria no mar.
Depois de tanto insistir, resolvi dar uma volta sem rumo. Não sabia andar pelo lugar que morava, então eu simplesmente fui dar uma voltar na praia, mas só pelo calçadão. Ainda estava traumatizada.
- Bela? - ouvi me chamarem e virei. Era a Thalia.
- Oi, Thalia, tudo bom? Está indo trabalhar?
Ela coçou a cabeça, nervosa.
- Infelizmente sim. Mas ta cedo ainda. Vamos parar aqui rapidinho. Ou tá com pressa?
Balancei a cabeça negativamente. Já estava de saco cheio de ficar sozinha.
Sentamos em um quiosque e ela pediu duas águas de coco.
- Sua favorita - ela falou pra mim, antes de acrescentar - E uma porção de pastel, por favor - e virou pra mim novamente - seu favorito também.
Sorri agradecida. Isso não era o meu favorito aos treze. Com certeza seria batata frita e coca cola.
- Como está sendo? - ela perguntou e eu percebi que seria fácil conversar com ela.
- Difícil. Eu estou quase surtando.
- Entendi. Nenhuma melhora? - ela não demonstrava sentimento algum ao falar, o que me deixava feliz em não aturar a pena dos outros.
- Aparentemente eu lembrei a música favorita da Florence. Coisa inútil de lembrar, não é?
Ela riu e depois sorriu pra mim.
- Bom, já é alguma coisa - deu de ombros.
- Eu não amo o Tom.
Essa pegou de surpresa. Não vi a frase saindo da minha boca. Ela simplesmente foi sem permissão.
- Como assim?
- Eu tento amar ele. Mas não funcionou. Eu passo muito tempo conversando com ele e saindo com ele, mas não deu, eu...
- Talvez você esteja se esforçando demais.
- Como assim? - minha vez de perguntar.
- Você não pode se forçar a se apaixonar por alguém. Simplesmente acontece. Sem aviso, sem previsão e sem permissão.
Pensei no que ela tinha dito. Nossa comida chegou e ficamos em silêncio por um tempo. Finalmente terminamos e ela olhou para o relógio.
- Agora eu tenho que ir - lamentou - Mas se quiser, pode se encontrar com a gente mais tarde. Não deve ser muito legal ficar sozinha.
Assenti, ainda pensando no que ela havia dito. Ela pagou a conta e foi embora. E eu fiquei lá, imaginando como seria se eu simplesmente parasse de tentar. Parar de tentar lembrar, parar de tentar amar...
Harry
Eu me martirizava por tê-la abandonado. Mas não saí da casa dela naquele dia. Não consegui. Ela chorou o dia inteiro e o seguinte também. Eu descobri que as pessoas só poderiam me ver se eu permitisse e se tivessem o dom. Então agora ela só poderia me ver quando eu deixasse. Estava começando a aprender a ser um espírito e pegando as manhas. Já tinha conseguido me teletransportar entre pequenas distâncias e hoje eu ia tentar algo mais ousado. Ia para outro país. Resolvi isso quando Alice foi falar com a irmã mais cedo. Eu estava fazendo mal para as duas. Como a Thalia disse, a minha presença era sentida através de saudade. Então eu parti.
Chorei quando cheguei na África. Não consegui ir direto, tive que fazer escalas. Demorei mais ou menos uma semana e meia. Resolvi aproveitar um pouco e conhecer novos lugares e tentar esquecê-la um pouco. Não consegui. Nem por um segundo. Eu observava as pessoas e pensava no quanto eu reclamava da minha vida desnecessariamente. Eu era feliz. Eu tinha o que comer, eu tinha onde dormir. Encontrei uma tribo (o Povo Himba) que estava em crise, pois o Pajé estava morrendo e ele ainda não havia escolhido um sucessor.
Quando cheguei, todos conseguiram me ver. Acho que por serem tão espirituais. Ficaram felizes, achando que eu era enviado pelo deus deles, o Mukuru. Me mandaram falar com o Pajé.
- O que te traz até aqui, Espírito Cinza?
Ele nem tinha virado para me olhar, então me assustei quando ele falou.
- Venho buscando respostas.
- A resposta pra pergunta que você está fazendo não existe.
- Como você sabe a minha pergunta?
Ele virou para me encarar e sorriu.
- Quer saber como deixar de existir.
- Você diz morrer de vez? - perguntei e ele assentiu.
- Talvez não tenha encontrado a resposta porque está fazendo a pergunta errada.
Ele encarou meus olhos por segundos. Sua feição era séria, mas logo se abriu em um sorriso vitorioso.
- Você não estava marcado para morrer.
- Você está dizendo que eu não deveria ter morrido?
Ele negou com a cabeça, bem fraco, mas ainda sorrindo.
- Chegue mais perto, Espírito Cinza.
Eu me aproximei, e ele me examinou uma última vez antes de olhar para o horizonte. Esticou a mão para que eu segurasse. Eu hesitei. Ele continuou com ela estendida, então eu a segurei. Ele apertou com força e permanecemos assim, até seu braço desfalecer e eu perceber que o Pajé havia morrido.