Capítulo 1


Harry


Vi quando as duas entraram no hotel. Não fazia ideia do que elas estavam fazendo ali. Não tinham me ligado. Não tinham avisado nada. Fiquei puto. Primeiro a minha mãe me deixa sair de casa e depois muda de ideia e vem me resgatar? Ela acha que eu sou uma criança?

- Ei.
Gritei. Elas não se viraram.
Uma recepcionista falava com elas e foi a única a prestar atenção em mim. Suspirou.
- Vocês são as familiares do...?
Ela olhou mais uma vez rapidamente pra mim e eu andava irritado até elas.
- Judd - minha mãe respondeu e eu vi que chorava - Harry Judd.
Coloquei minha mão em seu ombro e ela estremeceu.
- O que está acontecendo? - perguntei, mas mais uma vez somente a atendente me olhou.
Minha mãe desabou e minha irmã a abraçou.
- Que diabos está acontecendo aqui? - gritei e a atendente rolou os olhos.
- Oi, Senhorita... Thalia - li em seu crachá - Eu estou bem aqui. Pode deixar que eu as levo para o meu quarto agora.
Ela me olhou com compaixão e logo fechou os olhos.
- Sigam-me por favor. Vou lhes mostrar onde a Missa acontecerá.
Missa? Minha mãe era bem católica, mas minha irmã detestava Igreja, assim como eu.
A tal Thalia me lançou um olhar ameaçador e eu resolvi ficar onde estava.
Menos de dois minutos depois ela voltou, acenando levemente com a cabeça para que eu a seguisse.
- Entra - ela abriu uma porta e eu obedeci.
- O que você quer comigo aqui dentro? - sorri maliciosamente
Ela suspirou e rolou os olhos, me fazendo perceber que não tinha muita paciência.
- Olha, Harry, não é? - assenti - Vou ser bem direta com você. Você está morto.



Thalia


- Calma gata. Eu não te fiz nada, eu ein.

Eu já estava perdendo a paciência com esse mauricinho. Na hora em que eu ia responder, a porta se abriu.
- Lia?
- Er... oi, Sam.
- O que você está fazendo no armário de vassouras?
- Oi, sou o Harry - o tapado estendeu a mão para que Sam apertasse, mas é claro que ela não o fez.
- Estava só procurando uma coisinha... ah, achei! - exclamei e peguei a primeira coisa que vi na frente.
- Você estava procurando um espanador? - ela deu de ombros - Enfim, vamos sair hoje à noite, você quer ir também?
- Vamos quem?
- Eu, Soph, Doug, Flor com um dos seus peguetes e talvez a Bela e o Tom.
- Vou ver e aviso mais tarde, pode ser?
- Tá, mas vê se acaba logo aí com o seu... er... espanador e vai atender os clientes na piscina.

Pois é. Eu não sou recepcionista. Estava só cobrindo a Sam e seu intestino frágil. Sou garçonete da piscina. Servir bebidas para pessoas que já estão totalmente bêbadas, me esquivar de crianças cujos pais não estão nem aí e ainda por cima aturar cantada dos hóspedes, já que eu trabalhava de - eca - biquíni.
- Então por isso sabia que te conhecia de algum lugar - Harry falou - só que não estou acostumado a ter ver tanta roupa, você sabe.
Corei. Óbvio.
- Será que podemos ir ao que interessa aqui?
- Eu, você e sete minutos no paraíso.
- NÃO, PORRA - ela gritou e logo diminuiu o tom de voz - O fato de você estar mortinho da silva!
- Por que você fica com essa palhaçada de que eu estou morto? Que ideia.
- Pensa garoto. Sua mãe te ignorou junto com a sua irmã, a Sam não te notou e deixou você com essa cara de paspalho e a mão estendida esperando algum cumprimento. É provável que de todos nesse hotel, eu seja a única pessoa a te ver.



Sam


- Ela começou de novo.

Liguei para Sophia e foi a primeira coisa que falei.
- Ela quem? Quem tá falando?
- Ah, foi mal, Soph. É a Sam. É que to ligando aqui da recepção. Economizando no celular.
Ri nervosamente. Soph era a que mais tinha dinheiro de todas nós. Ela morava no hotel. Thalia e eu trabalhávamos aqui e Bela e Flor eram amigas da Soph. Foi muito fácil começar uma amizade entre nós cinco. E foi engraçado. Eu tinha acabado de conseguir um emprego pra Lia aqui, há um ano atrás. Sophia estava com as suas amigas na piscina e era o dia de experiência da Lia. As coisas precisavam sair perfeitamente bem. Mas é claro que a Lei de Murphy não permite, então o que aconteceu foi que no momento em que Soph levantou para ir ao banheiro, Thalia tropeçou em uma criança, derrubando toda a sua bandeja de drinks nela. Ela foi fazer uma reclamação sobre o ocorrido e mais tarde, no mesmo dia, Lia foi até o seu quarto pedir sinceras desculpas. Soph retirou a reclamação e disse que Thalia havia sido muito educada e que merecia o emprego. Não preciso dizer qual o tamanho da influência da opinião da Sophia nesse hotel. Desde então nós saímos juntas e viramos muito amigas. Até namoramos juntas. Soph é afim do Doug que é melhor amigo do Tom que namora a Bela e é meio irmão da Flor, que pega o Matt, o Simon e o James que é melhor amigo do Danny, que eu pego, entendeu? Confuso? Nem tanto.
- Sammy? Oiiiii? Tá aí ainda?
- Foi mal, Soph, dei uma viajada aqui.
- Normal. Mas conte-me o seu problema.
- É a Lia. Ela está começando a ficar estranha de novo...
Ouvi Sophia dar um suspiro.
- O que aconteceu?
- Sei lá, eu abri o armário de vassouras e ela parecia bem irritada. Quando me viu, fingiu estar tudo bem e disse que procurava por um espanador. Soph, temos espanadores embaixo de todos os balcões desse hotel.
- Relaxa, Sam. Isso não quer dizer nada.
Silêncio.
- Mas precisamos ficar de olho, ok?
- Sim, ficaremos.
Desliguei o telefone e fui até o salão onde estava acontecendo uma Missa. Aquela tragédia tinha deixado todos arrasados. Mas o meu Danny devia ser o pior de todos. Ele perdeu o seu melhor amigo nesse naufrágio. Queria muito poder ficar com ele nesse momento, mas se eu o fizesse, perderia o meu emprego. Logo achei os seus cabelos, mais claros que o normal, graças à quantidade de sol a que ele se expunha. Queria sentir aquele cheiro e abraçá-lo, dizendo que tudo ficaria bem. Eu sabia como era perder um melhor amigo. Quero dizer, mais ou menos. Meu cachorro morreu. Eu chorei pra caramba quando isso aconteceu. Acho que conta, né?



Florence


- Finalmente!
Soph já estava me esperando na piscina e eu rolei os olhos.
- Foi mal. Tive um pequeno contratempo com o meu namorado.
- Qual deles?
Rimos e eu sentei em uma espreguiçadeira ao lado dela. 
Na verdade nenhum deles era meu namorado. As meninas que me sacaneiam dizendo "Dona Flor e seus três maridos", o que até faz sentido se você pensar que eles realmente parecem meus maridos. Tirando o fato de que são três.
- O que aconteceu dessa vez? - ela já pergunta rindo. Sabe que nunca é nada demais.
- James pediu pra eu ir morar com ele. Vê se pode uma coisa dessas? - ri sarcasticamente.
- Eu até agora não entendo como você faz isso...
- Isso o quê?
- Cara, eu quase não aguento ser só afim do Dougster, o que me custa um bom tempo tentando fazê-lo perceber isso, imagina se tivesse que aguentar três dele...
- É realmente muito difícil conseguir administrar três relacionamentos, Soph. A pessoa precisa planejar muito bem as coisas. Por isso fica muito mais fácil quando você escolhe personalidades diferentes, sacou? Você não enjoa.
Soph gargalhou tão alto que os hóspedes do outro lado da piscina olharam para ver o que estava acontecendo.
- E como você os classificaria?
Pensei por alguns segundos e sorri marotamente.
- Matt, o gringo . Simon, o intelectual. James, o gostoso.
- Bela, a gostosa - Bela chegou e já começou a falar merda
- Anh?
- Vocês não estão se qualificando? Tipo "Dave, o Bárbaro"?
- Você sabe que isso é um desenho, não sabe? - Soph prendia o riso
- Céus. Você poderia ter falado "Alexandre, o Grande". Ou até mesmo "Danny Jones, a Anta". Mas tinha que falar "Dave, o Bárbaro"?
- Ah, é que eu gosto de desenhos animados.
- Oi meus amores.
Thalia se juntou a nós e trouxe drinks que seriam postos na conta da Sophia - haha - para alegrar o nosso dia.

- Estava sentindo a sua falta, vadia. Estava onde?
- Seu amor por mim me comove, Soph - ela coçou a cabeça - Sam foi cagar e eu fiquei no lugar dela na recepção.
Rimos e eu fiquei séria de repente.
- Vocês viram o acidente?
- Sim. Coisa horrível, não é?
- Ai, nem me fale - Sam já chegou sentando em uma espreguiçadeira. NO MEIO DO TURNO DELA - Meu Danny está arrasado.
- Meus deuses equinos, eu esqueci de ver como o Tom estava. Que irmã desqualificada eu sou.
- O amigo deles morreu, não foi? - Soph sentiu compaixão - Preciso achar meu Doug...
- Harry Judd - era a primeira vez que Thalia falava sobre a tragédia.
- Gente, alguém só me explica direito o que aconteceu? Não quero dar uma de burra quando for consolar o Tom - Bela choramingou.
- Era um cruzeiro. Alguém lembra pra onde tava indo? - como ninguém respondeu, continuei - Enfim. Um cruzeiro que deu muito, muito errado. Foi quase como em Titanic, só que não foi em um iceberg que eles bateram. Não deram muitos detalhes ainda, mas como não foram encontrados sobreviventes no mar, deram todos por mortos. 
- Por que não deram como desaparecidos? - Bela parecia intrigada.
Dei de ombros.
- Porque eles estavam no mar, no meio do nada. É praticamente impossível que alguém tenha sobrevivido. A água gelada, não ter lugar pra ir, nada para comer...
Todas concordamos silenciosamente com Thalia.
- Já estou indo, meninas.
Soph levantou da sua cadeira, ajeitando o seu cabelo em um coque frouxo.
- Vou dar um pulo na Missa e encontrar o Doug.
- A Missa já acabou, Soph - Thalia informou e ela suspirou, pegando o celular.
- Vou atrás do Tom - Bela levantou prontamente.
- Eu vou atrás do - Sam começou, mas Lia interrompeu.
- Do seu trabalho, né, Sam? Você deveria estar na recepção, e não aqui, pra começo de conversa.
- Ok, mãe, to indo já. Mas depois do expediente eu vou atrás do Danny. Quanto estresse, só queria falar a frase igual a todo mundo.
- Eu não sei de quem vou atrás - refleti, mais falando pra mim mesma do que pra Sam e Thalia, que eram as únicas que haviam restado lá - Acho que vou encontrar com o James.
- Aquele que pediu pra morar com você?
- Que absurdo, como você sabe disso? - olhei perplexa para uma Sam vitoriosa.
- Sei os passos do seu namorado antes de você imaginar que ele os dará.
- Suspirei. Em primeiro lugar, Danny Jones é muito fofoqueiro. E em segundo lugar, James não é o meu namorado.
Até Thalia riu e depois saiu, puxando a Sam com ela. Como não tinha mais o que fazer, levantei e fui atrás de um pouco de prazer. Sexo pós discussão é sempre uma delícia.



Danny


Eu ainda não consigo entender como isso foi acontecer. Não sei se alguém foi um dia capaz de sentir essa dor que eu estou sentindo. É um vazio imenso. Harry sempre foi o meu melhor amigo. Minha lágrimas já não desciam mais e eu sabia que não era por falta de vontade. Talvez isso já tivesse se tornado fisicamente impossível.
- Meus sentimentos, Sra. Carmem.
Abracei a mãe dele e em seguida sua irmã.
Resolvi sair de lá o mais rápido possível, pois não aguentaria pensar mais nele. Avistei Tom e Doug no final do salão, mas não estava com vontade de falar com ninguém. A única pessoa com quem eu gostaria de falar havia morrido. "Ele está morto". Essa frase ecoava pela minha mente e eu só queria desabar.
- Danny...
Ouvi sua voz triste me chamando. Não pude deixar de sorrir. Ela me abraçou e foi aconchegante como estar na cama, coberto por um edredom quente e macio, tomando chocolate quente em um dia frio.
- Eu sinto muito, meu amor.
- Eu sei - beijei sua testa e entrelacei nossos dedos, beijando sua mão em seguida.
- Posso te ver mais tarde?
- Claro. Passa lá em casa quando acabar o seu turno.
- Tem certeza? Posso deixar você sozinho se preferir...
Ela falava isso, mas estava na cara que só queria ser educada. Então balancei a cabeça em negação.
- Quero você comigo. Porque sem você eu não sei se aguento passar por tudo isso.
Ela sorriu e aquela cena foi uma das poucas lembranças felizes daquele dia.
- Vou te ligar quando sair do trabalho então tá?
Assenti, meio distraído.
- Como preferir.
Dei um rápido beijo na sua boca e virei para ir embora.
- Eu te amo, Danny.
Quando voltei meu olhar para o seu rosto, ela estava perplexa com o que havia dito.
- Desculpe... Eu...
Ela quis se esconder de mim, olhando para os lados em busca de ajuda.
- Você está com vergonha de mim? De falar comigo, Sam?
Ri dela e fui abraçado. Seus dedos tocavam meu rosto e embora eu não tenha respondido à sua declaração, seus olhos diziam silenciosamente "vai ficar tudo bem".
- Bradley. Olha a fila que está se formando - Jane começou com a implicância que tinha com a Sam.
Ela como sempre bufou, reclamando que sua supervisora era um pé no saco.
- Ela está certa. Você está no meio do trabalho e eu estou te atrapalhando.
- Você nunca atrapalha - aquele sorriso me trazia muita esperança de que tudo ia ficar bem mesmo - Te vejo à noite então?
Fui então para a minha casa. Deitei na cama e dormi um sono muito profundo.



Bela


Fui atrás do Tom, mas ele pediu pra ficar sozinho. Estava muito triste pela perda do amigo.

Fui à praia surfar e já que ninguém quis ir comigo, fui sozinha mesmo. Eu já estava acostumada, porque só a Soph gostava de praia também. Eu tinha ensinado ela a surfar. Ela até que estava indo muito bem.
- Oi Bela.
- Oi James.
- Ta viajando aí, né?
Sorri e assenti.
- Um pouco.
Estávamos parados em cima de nossas pranchas, esperando que alguma onda resolvesse aparecer.
- Fiquei sabendo do que aconteceu. Danny pediu que eu não fosse com ele. Ele queria ficar sozinho. Eu sinto muito.
Ele realmente parecia sentir.
- Eu também. Quero dizer, eu não o conhecia direito, ele não era nem meu amigo - isso soou insensível, então adicionei - Mas sei o quanto era importante para os meninos.
Abaixamos nossas cabeças como se ficássemos um minuto em silêncio, por luto.
- Vocês vão sair hoje?
Ele perguntou, como se o assunto anterior nunca tivesse existido.
- Não decidimos ainda - na verdade já estava tudo combinado, mas eu nunca sabia o que responder, já que a Flor tinha três pretendentes. Ficava difícil descobrir quem ela levaria.
- Entendo - ele gostava mesmo dela. Isso estava na cara pra quem quisesse ver.
- Mas pode deixar que aviso qualquer coisa - falei, só por educação.
Finalmente uma onde veio e eu agradeci por me tirar dessa conversa. Remamos e eu consegui pegá-la antes dele. Era tudo que eu precisava. Minha distração favorita. Sorri e inspirei fundo. Era o meu cheiro favorito. Minha pele ansiava pelos raios solares misturados com a água salgada. Doce Rio de Janeiro. Eu te amava insanamente.
Quando a fome bateu - o que não demorou muito - saí e fui até um quiosque. Liguei pra Soph.
- Desce aí. Vem me encontrar no quiosque.
Não precisava dizer qual. Essa minha linda amiga rica morava no Sheraton. Siiiim, no Sheraton. Existe uma área residencial. Ela e o Danny moram lá. O menino que morreu também morava. Ele dividia um apartamento com o Jones.
Não posso reclamar da minha condição financeira. Mas estou longe de estar perto da Soph - sacou?- Moro no Parque das Rosas e pelo menos é perto da praia, assim posso praticar meu esporte favorito com frequência. Vi a figura elegante da Soph saindo do hotel. Quando chegou, pediu uma água.
- Vamos almoçar comigo hoje? Nem to a fim de ficar na rua.
- O que aconteceu?
- Doug me dispensou hoje. Queria ficar sozinho.
- Tom também - disse cabisbaixa.
- Relaxa. Um dia eles vão perceber que é muito melhor passar por essas coisas acompanhado. Sozinho você não tem distração.
- É...
Pegamos a água dela e subimos para o seu apartamento.



Harry


Depois que aquela maluca fechou a porta do armário na minha cara,  me endireitei e saí.

Fui até aonde estava tendo a Missa procurar a minha mãe. Ela realmente estava abalada na recepção. No meio do caminho, encontrei o Danny, mas ele pareceu não me ver.
- DANNY - gritei e ele continuava conversando baixo com a Sam.
Seus olhos estavam vermelhos e ele ainda soluçava de leve.
- Por que diabos você está chorando?
Ele estava se afastando e eu cheguei perto o suficiente para ouvir a Sam dizer "eu te amo" para o Danny. Congelei. Não deveria atrapalhar esse momento. Saí de fininho para que ele não me visse. Encontrei minha irmã de olhos fechados parada ao lado da minha mãe enquanto esta rezava para um Santo que não reconheci.
- Mãe? - falei do jeito suave que sempre lhe arrancava um sorriso.
- Vamos, mãe? - minha irmã chamou.
- NÃO - minha mãe chorou mais e se agarrou à estátua.
- Mãe, ficar aqui não vai trazer o Harry de volta - ela falava calmamente, mas vi as lágrimas que caíam.
- Me trazer de volta? Mas eu estou aqui...
Me calei. Já tinha percebido que ninguém ia me escutar. A ficha foi caindo e eu não estava entendendo mais nada.
- Como isso é possível?
Me afastei, olhando uma última vez para a minha família e corri pelo saguão de entrada até o bar da piscina. Precisava falar com ela.
- O que aconteceu comigo? - gritava ciente de que falava sozinho.
Depois de descer as escadas, abri a porta da cozinha do bar e vi olhares estranhos vindos na minha direção.
- Finalmente estão me vendo.
Mas então alguém levantou, andou até onde eu estava, fechou a porta e voltou a conversar.
- Adaílson, faz mais um sex on the beach e um martini, por favor? Nunca vi beberem tan...
Então ela me viu e deixou a bandeja cair no chão. Ainda bem que estava vazia.
- Merda.
Pegou a bandeja e saiu da cozinha.
- Ei! Volta aqui! Preciso de ajuda!
Ela parou.
- O que você quer? - perguntou emburrada para um hóspede, mas sabia que sua pergunta estava direcionada a mim.
- Eu preciso de ajuda. Eu preciso saber o que aconteceu comigo.
O hóspede fez o seu pedido e ela assentiu. Ao sair de perto dele, acrescentou:
- Me encontre no saguão quando meu turno terminar.
Só disse isso e me deixou desesperado sozinho. Saí da cozinha e fui para o meu antigo quarto. Danny estava lá dormindo. Seu semblante transparecia dor. Muita dor.
Ao seu lado jazia um jornal. Tinha uma notícia de capa sobre um cruzeiro. Peguei cuidadosamente e li a introdução.
"Na tarde de ontem, dia 23, o cruzeiro com destino a Cancun naufragou, deixando mortos e desaparecidos. É provável que não haja nenhum sobrevivente (Ver mais na página 6)."
Larguei o jornal com tanta força que o Danny chegou a se mexer. Sentei em sua cama e o observei tristemente. Quando olhei para fora da janela, já estava escuro e imaginei que estivesse na hora de encontrar a Thalia. Desci com cautela e a encontrei parada ao lado da porta de saída, olhando para o relógio. Quando me viu, pegou o celular, e sem discar nada, encostou em seu ouvido, fingindo falar com alguém e começou a se afastar. Eu a segui.



Sophia


Pedi o almoço pelo serviço de quarto, porque fiquei com preguiça de cozinhar. Conversamos um pouco e até dormimos. Quando chegou a hora de começarmos a nos arrumar pra sair, liguei pra Thalia. Ninguém atendeu. Liguei pra Sam.

- Vamos hoje então?
- Cara, nem vou. To puta com o Danny. To ligando pra ele e ele não me atende.
- Sammy, não fala assim. Você sabe que ele passou por um momento muito difícil hoje. Não vai ajudar se você ficar brigando com ele.
- Eu sei - ela suspirou - mas ele combinou comigo.
- Você vai precisar ser muito compreensiva com ele por enquanto. Já imaginou se fosse você? Se você tivesse perdido uma de nós?
- Você tem razão. Não seria fácil.
- Eu sempre tenho razão.
Desligamos o telefone e desisti de falar com a Lia.
Tomamos banho e Bela escolheu uma roupa minha. Eu estava com um vestido preto justo até a cintura e depois ficava mais folgadinho. Ele tinha um decote nas costas imenso super sexy. Coloquei um scarpin vermelho sangue. Bela pegou uma saia comprida preta e um corselet com tons arroxeados. Esperamos pelo Tom, mas ele disse que não sairia com a gente. E nem o Doug. Ligamos pra Flor e ela tinha convidado o Matt também. Ela passou lá e nos buscou.
- Como está o seu irmão? - Bela perguntou assim que entramos no carro da Florence.
- Não quer falar com ninguém. Mas ele vai ficar bem. Ele é forte.
Ela sorriu. Tom e Doug realmente precisavam ficar bem. Danny era o que precisaria de mais apoio.
- Então, vamos aonde?
Perguntei, querendo mudar o assunto.
- Então - Florence começou - pensei em irmos ao DAN.
DAN era a sigla de "Dance All Night", uma boate que gostávamos de frequentar.
- Por mim...
- Eu topo - disse.
Matt apenas balançou a cabeça. Não era muito bom falando português.



Thalia


Sophia estava me ligando igual a uma condenada. A gente tinha combinado de sair e eu não queria atender enquanto estivesse com o Harry aqui. Eu chamei ele para poder explicar o que poderia ter acontecido.

- Eu realmente morri, não é?
Ele quebrou o silêncio. Eu só assenti.
- E por que você consegue me ver? Por que ninguém mais consegue?
Dei de ombros.
- Esta é uma pergunta que eu nunca vou saber te responder. Mas começou quando eu tinha oito anos. Minha tia morreu e eu era muito apegada a ela. Duas semanas após a sua morte, comecei a vê-la. Quando contei para a minha mãe, ela ficou brava, dizendo que eu estava inventando essas coisas pra chateá-la. Meu pai dizia que era porque eu estava com saudades. Mas isso continuou acontecendo e então meus pais me mandaram para uma espécie de hospício. Era próprio para crianças. Fiquei lá por volta de seis meses. Me liberaram porque eu aprendi a não contar pra mais ninguém. Sabia que ver pessoas mortas não era bom sinal e que ninguém deveria ficar sabendo. Então sempre que me perguntavam se eu via algo fora do normal, eu dizia que não. Sammy já era minha amiga na época e foi a única a continuar sendo depois que saí de lá. Ela sabe disso, mas não acredita. Há seis meses eu perdi meu avô. Encontrei com ele por um mês antes dele ir embora de vez. Contei para a Sam. Ela não acreditou e contou pra Soph. Descobri que nem minhas amigas poderiam saber disso e pedi com muita veemência que não visse mais esse tipo de coisa - 
Ele assentiu, me incentivando a continuar - Aí você apareceu. Não é difícil reconhecer um fantasma quando se vê um - ele estremeceu ao ouvir a palavra 'fantasma' - vocês não tem brilho. Seus olhos... São cinzas...
Fechei os olhos. Era horrível ver que estava acontecendo de novo. Ficamos em silêncio e eu esperei.
- Me ajuda - ele suplicava - eu não quero morrer.
-Você já morreu, Harry. A sua única passagem agora é pro outro lado. É morrer de vez.
- Se eu ainda não morri de vez, quer dizer que eu posso voltar a vida?
Balancei a cabeça com força.
- Isto não é possível. Existe alguma coisa que você precisava fazer? Que deixou incompleto?
Ele riu sarcasticamente.
- Sim. A minha vida.
Segurei sua mão e imediatamente um frio percorreu todo o meu corpo, fazendo com que eu soltasse rapidamente.
- Sou frio?
Sua voz falhava e eu estava com pena.
- Gelado.
Ele colocou as mãos no rosto e chorou. Só pude olhar para a cena e chorar junto. Era horrível quando eles percebiam o que tinha acontecido. Que era real. Que eles tinham de fato morrido.
- Não fique assim. Do outro lado não é ruim.
- Você já foi pra saber?
Ele foi ríspido e eu resolvi me calar.
- Harry?
Ele me olhou.
- Eu preciso ir embora. Mas você pode ficar aqui se quiser.
Sorri e ele sorriu de volta.
- Queria ficar no meu quarto...
- Você não pode. As pessoas conseguem sentir a sua presença. Isso só aumenta a infelicidade, porque sua presença e seu toque geram lembranças suas, o que acontece em forma de saudade. Desculpe.
Ele olhou pra cima e subiu no beliche do meu quarto. Levantei e observei sua reação.
- Vou ficar.
Já estava saindo para tomar banho e ele me chamou.
- Thalia.
Me virei.
- Você consegue me sentir?
Fui até ele sorrindo.
- Eu sinto sua presença. Eu te vejo. E eu sinto o seu toque.
Ele passou suavemente seus dedos pelo meu rosto e eu estremeci.
- Desculpe - ele tirou, fechando os olhos.
Segurei sua mão e aguentei o frio, mesmo que me deixasse tonta.
- Não se desculpe. É bom - confessei e me virei a tempo de ver seu sorriso.



Dougie


"Tem certeza de que não vai?" Era a mensagem da Soph no meu celular. Eu ia pedir pra ficar com ela hoje. Agora não mais. Não queria comemorar nosso primeiro dia juntos no mesmo dia da morte do meu amigo.  Mas ficar em casa estava me matando. Eu estava triste e não queria mais sentir isso. Precisava dos meus amigos pra me animar.

"Vou me arrumar. Vão aonde?"
Ela respondeu quase imediatamente "Eeeba. Vamos na DAN."
"Ok, encontro vocês lá."
Bati na porta do Tom, já pronto.
- Vamos, cara?
- Po, nem to afim de sair.
- Vamos cara. A gente precisa espairecer. Ficar pensando muito nisso não faz bem. E não vai ajudar em nada.
Ele pareceu pensar e me deixou entrar.
- Vou só tomar uma ducha.
Menos de meia hora depois, saímos do apartamento dele e pegamos um táxi até a DAN. Queríamos beber e voltar de carro seria um aborrecimento.
- Oi amor.
Bela levou um susto quando Tom levou a mão à sua cintura.
- Você veio!
- Não aguentei ficar sem você.
- Own que lindo - Flor riu - Que bom que veio, irmãozinho.
Recebi um abraço super carinhoso da Soph e fui cumprimentar os outros.
- Sam não vem?
- Não - Soph me respondeu - ela ficou meio chateada.
- E a Lia? - ouvi o Tom perguntar.
- Não consegui falar com ela, mas mandei mensagem dizendo onde estávamos.
E por pura coincidência, cinco minutos depois ela chegou, de cara emburrada.
- Sam não vem? Jura que eu vou ficar de vela?
- Ah não Thalia. Você acabou de chegar e já vai ficar insuportável? - Soph perguntou.
- Você está linda! - Flor sempre tentando amenizar as situações. 
- Obrigada, Flor.



Harry


Ela estava incrivelmente linda. Passou pouca maquiagem, mas caprichou no destaque dos olhos. Fingi estar dormindo quando ela saiu do banho, já vestida - droga. Na verdade nem sei se eu durmo, porque até agora eu não estou com nenhum sono. Ela estava com um vestido roxo justo na cintura e solto nos ombros, meio caído. Parecia arrumada demais para qualquer lugar que fosse. Incrivelmente linda.

- Harry? - ela chamou antes de ir.
- Oi? - fiz minha voz mais sonolenta possível.
- Já estou indo. Acha que vai ficar bem?
Ela me examinou e eu sorri.
- Pode ir. Vou ficar bem.
- Não saia do quarto, ok?
Dez minutos depois de ter ido embora, me arrependi de tê-la deixado ir. Não queria ficar sozinho. Levantei da cama e com cuidado abri a porta. Não sabia se havia mais alguém na casa, mas ela estava silenciosa e sombria. Provavelmente se eu fosse vivo, teria ficado com medo.
Olhei para a porta e não consegui achar nenhuma chave. Então tive a brilhante ideia de correr em direção a ela. Tudo que consegui foi bater de cabeça. Pelo menos não doeu e não fez barulho.
Pulei a janela, já que não poderia me machucar ou morrer. Foi aí que eu pensei que não tinha ideia de onde eles tinham ido. Resolvi procurar no lugar que o Danny sempre ia com os amigos. Dance All Night estava lotado e com filas quilométricas dando voltas ao lado de fora. Pela primeira vez no dia pensei em um lado positivo de estar morto. Nada de filas. Nunca mais.
- Ai não. O que eu estou fazendo aqui?
Passou pela minha cabeça que aquilo era um erro. E se ela estivesse acompanhada? E se não me quisesse aqui? Eu ficaria sozinho de qualquer forma. Tirei todas as indagações da minha mente e assim que um adolescente desengonçado e cheio de espinhas abriu a porta para entrar, eu fui junto.



Tom


Eu estava conseguindo me divertir apesar de tudo. Estava feliz por estar com a Bela. Mas volta e meia meus pensamentos paravam no Danny. Não adiantava mais pensar no Harry, ele estava morto. Mas Danny estava sofrendo. Sofrendo mais que qualquer outra pessoa.

- Você está bem?
Sua voz era doce mesmo com toda a altura da música.
- Vou ficar. Desculpe, Bela.
Ela deu de ombros.
- Sei como se sente.
E sorriu. Dei um selinho em seus lábios. Poderia passar o tempo que fosse, eu nunca cansaria daquele beijo.
- Não passou o negocinho de cereja hoje.
Ela riu.
- Você disse que não ia vir. Não fazia sentido usar o protetor labial sem você.
Fiz o bico que ela diz ser fofinho e a envolvi com meus braços. Sua cabeça repousou em meu ombro e ficamos assim por muito tempo.
Ela tinha um protetor/hidratante labial com gosto de cereja. Provavelmente um dos motivos de ter me apaixonado por ela era o gosto de seus lábios.



Sam


Eu nunca, nunca, nunca vou perdoar o Danny.

"Desculpe por hoje, minha Sam. O telefone estava no silencioso e eu acabei dormindo"
"Sem problemas, Danny. Quer que eu passe aí?"
"Sim :)"
Tá. Eu perdoei ele, e daí? O que eu posso fazer se ele é o amor da minha vida?
Demorei bastante pra me arrumar e peguei um ônibus pra ir até lá. Esperei uns trinta segundos que pareceram cinco minutos até ele abrir a porta.
- Oi.
- Oi, Sam - ele me deu um beijo e eu o abracei.
- Eu quero dormir aqui hoje, posso?
- Sempre, né? - ele sorriu, me sacaneando porque sempre pedia pra dormir com ele. Mas hoje era diferente. Eu não podia deixar que ele dormisse sozinho.
- Desculpe mesmo por te deixar na mão, Sam. Acordei na hora em que te mandei mensagem.
- Não tem problemas, Danny. Você sabe.
Nós fazíamos sexo feito loucos, mas eu sabia que hoje não ia rolar. Me peguei pensando em quanto tempo ele se sentiria feliz o bastante para voltarmos a fazer.
- Desculpe pela conversa maluca de hoje também. Sabe? Aquelas coisas que eu falei.
- Você sabe que eu também te amo. Só não sei se consigo assumir um relacionamento agora.
- Danny, você tem outra?
Coloquei as mãos na cintura e olhei fixamente pra ele, até que ele riu. Gargalhou.
- Tá maluca, amor?
- Não - me exaltei - Você vive dizendo que não consegue assumir um relacionamento. Mas eu já estou só com você e você só comigo. Qual é a dificuldade?
- Essa foi a maior idiotice que você já falou. Só a fidelidade não é o suficiente...
- Fidelidade e amor. Tudo que um relacionamento precisa.
Ele riu desconversando como sempre fazia e me abraçou.
- Vem dormir, amor.
Me deixei ser carregada e deitamos na cama, onde ficamos em silêncio. Até que eu caí no sono.



Harry


Ela estava com outro cara. Foi horrível. Ela sorria e segurava a mão dele. Espera. Acho que ela está dando um fora nele. Assim que ela se soltou do cara, eu me aproximei e ela se assustou.

- Que diabos você está fazendo aqui, Harry?
- Cansei de ficar em casa. Onde estão os outros?
- No bar, enchendo a cara.
- Vamos sair daqui? - olhei pra ela e vi seu revirar de olhos.
- Não acredito que você veio até aqui - ela falou quando nos afastamos um pouco da boate.
- Eu já disse, cansei de ficar lá. É entediante.
Agora ela não me dava atenção e digitava uma mensagem.
- Tá falando com quem?
- Avisando pra Flor que eu... - ela parou e olhou pra mim - eu não te devo satisfações.
Eu ri.
- Vamos à pé?
Fiz careta.
- Bom, você provavelmente não vai se importar, já que não está de salto e... ah é, você está morto. E não tenho dinheiro pro táxi. Ia rachar com alguém, mas...
- Desculpe.
- Desculpado.
Ficamos em silêncio durante uma parte do caminho e eu estava ficando desconfortável.
- Quer que te carregue? - perguntei ao ver que ela andava com dificuldade na rua de paralelepípedo - seu salto está incomodando, né?
Ela assentiu.
- Mas sabe, não ia ser muito legal se alguém visse uma pessoa flutuando por aí.
- É verdade. Ninguém ia me ver.
- Seria engraçado - ela riu de leve, achando graça.
- Com certeza. Se eu visse sairia correndo.
Não demorou muito pra chegarmos na esquina de casa - como assim esquina de casa? Já estou considerando aquela a minha casa?
- Não acredito que você realmente achou ser possível atravessar a porta.
Ela gargalhava depois que eu contei minha tentativa frustrada de sair de casa.
- Não tem graça, poxa. É assim que retratam os fantasmas.
Ela riu mais um pouco, mas calou-se ao chegar na porta de casa.
- Eu ia pedir pra não fazer barulho, mas não faz diferença.
- Eu sou muito silencioso, pode deixar.



Thalia


Eu encarava com a maior naturalidade essa coisa toda de ver fantasmas. Não gosto de chamá-los de espíritos. Acho muito forte. Harry parecia encarar bem também a situação, o que era estranho.

- Harry? Você sabe por que ainda está aqui?
Já estávamos deitados em nossas camas e eu sentia muito sono, mas precisava saber.
- Não faço ideia. Não é normal?
Balancei a cabeça, mesmo sabendo que ele não enxergaria.
- Não. As pessoas ficam nesse plano astral por um motivo. Uma vingança, alguma coisa mal resolvida, proteção.
- Proteção?
- É. Tipo mães que ficam tempo suficiente pra se certificar de que o filho vai ficar bem e coisas assim.
- Entendo.
O silêncio reinou mais uma vez, mas esse era de reflexão.
- Você acha que pode me ajudar a descobrir?
- Achei que não fosse pedir - pude perceber que ele sorria - Sabe, pedir ajuda é o primeiro passo pra conseguir passar pro outro plano astral.
- Tipo reabilitação. Assumir que tem um problema.
Ele riu de leve.
- Tipo isso. Mas Harry...
Eu hesitei e estremeci. Ele esperou que eu continuasse falando. Eu não o fiz.
- Fale, Thalia.
- Deixa pra lá.
- Posso te pedir um favor?
- Pode - respondi receosa.
- Promete que vai fazer de tudo pra me ajudar?
- Claro.
- E se eu te pedir pra me ajudar a voltar à vida?
- O QUÊ?
Falei um pouco alto e logo me contive, com medo de acordar alguém em casa.
- Ta maluco, Harry? Isso não é possível.
- Você não sabe disso. Só quero que prometa que vai me ajudar.
Fiquei quieta e comecei a medir as possibilidade de dar certo. Quase nulas.
- Claro. Eu prometo.
Senti que ele sorria e sorri também. Às vezes um fantasma era enviado para proteger alguém  Às vezes ele só precisava ser protegido.
- Boa noite, Thalia.
- Boa noite, Harry.