Sophia
Nossa viagem foi tranquila, tirando o fato do Jon ter resolvido ficar por lá mesmo e Flor ter voltado sozinha e com um peguete a menos.
- Eu até agora não acredito nisso! - ela reclamou quando embarcamos no mesmo voo.
- Para de pensar nisso, Florence - Doug balançou a cabeça - Mas tá vendo? Se você desse mais valor aos...
- Iiih, nem comece com isso, mocinho.
- Ei vocês dois, sosseguem! - eu estava com a cabeça estourando, e ter esses dois brigando feito crianças ao meu lado não ia prestar. Ainda mais porque estava no meio deles.
- Certo - Doug pareceu pensar - Qual foi a parte da viagem que vocês mais gostaram?
- Fácil! Qualquer uma que não inclua o Jon ficando em NY.
- Desencana, Flor. Você nem gostava dele mesmo.
- Bom - Doug começou - eu gostei mais do show da Broadway.
- Qual deles?
- Não sei - ele pareceu pensar - Fico entre Billy Elliot e o Rei Leão. Me emocionei com os dois.
É verdade. Ele tinha chorado lindamente ao final dos dois. E no de Billy Elliot ainda fomos convidados para conhecer os atores. Ele ficou ainda mais emocionado. Vai entender.
- Tá. Sério agora. Minha parte favorita foi ter encontrado com o Matthew Perry no Central Park. Me senti em Friends, mas não estávamos em Central Perk.
Revirei os olhos da piadinha dela e ela fez cara feia.
- Jura que essa foi a sua parte favorita?
Ela pareceu pensar.
- Sim, porque quando o cumprimentei, dei um selinho nele. Gostoso demais.
Doug e eu rimos tão alto que as pessoas em volta nos olharam com cara feia, nos mandando calar a boca.
- E você, Soph?
Mordi a parte interna da bochecha, como fazia quando estava concentrada.
- As compras - dei de ombros.
Eles me olharam boquiabertos, claramente espantados.
- Como assim?
- Gente, eu não aguento mais olhar pra NY. A parte boa são as compras, né?
- Cacete, sua fútil! Eu aqui me emocionando com os musicais e você só querendo saber da 5th Avenue..
- Seu viadinho - Flor sussurrou e nós duas rimos.
Thalia
Alice já estava bem, mas eu não. Não tinha um dia em que eu não pensasse nele. Há duas semanas eu vinha pensando nele ao acordar e ao dormir. No dia seguinte ao que foi embora, encontrei o caderno que havia jogado nele em cima da minha estante. Quando abri, vi pétalas secas das flores de Paris que ele havia me dado e um bilhete curto. Também tinha uma foto nossa, a única que tiramos juntos.
"Because everything you do and words you say
You know that it all takes my breath away
And now I'm left with nothing
So maybe it's true that I can't live without you
And maybe two is better than one
There's so much time to figure out the rest of my life
And you've already got me coming under
And I'm thinking two is better than one"
Era só isso que estava escrito. Nenhuma explicação. Primeiro ele diz que não quer me ver nunca mais e depois faz isso comigo? Essa suposta declaração através de uma música? Passei uma semana pensando nisso, mas quanto mais me ocupava, mais conseguia tirá-lo dos meus pensamentos, mesmo que fosse por apenas algumas horas.
- Lia!
Eu estava com saudades das minhas amigas. Resolvi marcar uma noite das meninas, porque eu percebi o quanto o nosso grupo estava se separando. Com a Sam e a Soph namorando, a Bela desmemoriada, Flor quase sem tempo, com os seus três maridos - arrumou um substituto pro Jon assim que aterrissou - e eu sempre trabalhando e pensando no Harry...
Ele estava morto. Eu precisava parar de pensar nele. Só as distrações do dia a dia já estavam bastando.
- Oi Sam!
- Porra, vadia! Achei que não quisesse mais ser a minha melhor amiga.
Ela fez bico dramático e olhar triste.
- Sam, eu tento me livrar de você desde a minha infância, já me conformei que não vou conseguir.
O bico dela ficou maior ainda.
- Mas Lia, eu te amo taaaanto.
- Eu também, cabeção. Mas vê se para de mentir.
Todas já estavam lá no apartamento da Sophia. Até a Bela conversava sem parar com a Soph, contando como tinha progredido.
- Sério! Aí eu lembrei da minha conversa com o James quando a Flor foi comigo até a psicologa. Foi muito legal, porque foi uma conversa cinco minutos antes do meu acidente.
Ela sorria de orelha a orelha e eu estava muito feliz por ela.
- Oi Lia - todas falaram e eu respondi a cada uma.
- Tava com saudades de vocês... Essa vaca da Sam só quer saber do namoradinho dela e a Soph só quer saber de ficar se agarrando por aí com o Doug...
Elas riram, menos a Sam, que fez bico. Normal.
- O que vamos fazer hoje?
- Ir à DAN. E pegar todos.
Na hora que eu falei isso, todas olharam assustadas pra mim.
- Quem és tu e o que fizestes com Thalia?
Flor falou, ironizando.
- HA HA HA - ri forçadamente, enquanto elas ainda me olhavam estupefatas.
- Nunca achei que eu fosse ouvir a Thalia dizendo isso.
- Por que? Eu ein! Eu sou normal, ué.
- Acontece que eu sempre apostei que você fosse até virgem ainda.
Soph comentou e eu sorri, sem responder.
- Olha, viu só?
- O que? Não falei nada - me defendi, ainda rindo.
- Agora chega desse assunto, gente - Bela reclamou e eu fiquei feliz por ver que ela estava muito mais próxima de nós.
- O que vamos fazer então?
- Filme, pipoca, brigadeiro, coisas engordativas e muita música.
- Hum. Minha boca até salivou - falei sério e percebi que há muito não comia besteiras. Dava duro pra poder continuar no meu emprego, e isso significava ter um corpo bonito para ficar se expondo por aí de biquíni.
- Eu faço o brigadeiro - Sam levantou correndo e foi pra cozinha, com Soph ao seu encalço.
- Nããão - Sophia gritou - ela vai queimar. Vai ficar ruim. Sai da minha cozinha, não quero outro acidente aí.
Todas riram e a Bela comentou:
- Teve um incêndio, né?
Sorrimos para ela, felizes por ter lembrado de mais alguma coisa.
- Sim. Adivinha quem causou? - perguntei e ela deu de ombros - Você.
Ela arregalou os olhos mais do que eu achava possível.
- Soph - ela saiu correndo até a cozinha - Me desculpe, sério mesmo.
E nosso dia passou rápido. Com coisas gostosas de comer, filmes com caras gatos e a Bela se desculpando com a Sophia de cinco em cinco minutos. À noite, decidimos dar uma passadinha na DAN, só nós cinco.
Sam
Danny encheu o saco porque eu iria pra DAN sem ele. Me ligou quinze vezes só pra dizer que me amava e pra eu te juízo. Estávamos lindas e sabia que chamaríamos muita atenção na boate. Então, pra provocar um pouco mais, tirei uma foto minha e enviei pro Danny pelo whats app.
A resposta veio segundos depois, ele surtando sobre como o meu vestido estava curto e tudo mais. Nem ligo. Dei de ombros e não respondi.
- Qual vai ser a de hoje?
- Eu vou mudar - Lia anunciou - Quero uma dose de vodca pura, por favor.
Já estávamos no bar e olhamos pra ela assustadas. Ela sempre pedia Sex On The Beach.
- Uau, que mudança!
- Bom - comecei - pra mim pode ser um chopp mesmo.
- Eu vou querer o de sempre - Soph falou e o barman piscou pra ela, já sabendo que ela queria dizer Piña Colada.
- Eu vou acompanhar a Sam no chopp - Flor gritou enquanto o barman se afastava.
- Eu quero uma Coca Cola - Bela gritou também e nós rimos.
- Tá de sacanagem, né?
Quando o barman trouxe nossas bebidas, pedimos que colocasse rum na Coca Cola da Bela, porque era inaceitável que ela saísse de lá sem beber. Não tenho ideia do que aconteceu depois do meu sétimo chopp. Só sei que acordei em casa com a maior dor de cabeça da história. Bela estava deitada ao meu lado e eu a cutuquei.
- Bela? Acorda!
Ela logo despertou e ficou me olhando.
- Olha só, pelo visto você esqueceu que demora pra acordar também - falei rindo - antes do acidente você precisava de meia hora pra acordar.
Ela continuava me olhando, tentando entender o que eu estava falando e balancei a mão com descaso.
- Deixa pra lá.
- Por que eu to aqui? - a voz dela estava muito rouca e ela se assustou - E o que aconteceu com a minha voz?
Ela segurava a garganta com força e eu fiquei com medo de que se estrangulasse.
- Não sei. Não tenho nem ideia de como chegamos aqui...
Ela pigarreou e sua voz voltou - um pouco - ao normal.
- Acho que foi com o Léo.
- Quem é Léo?
Ela mordeu o lábio inferior.
- Sei lá. Vamos ligar pras meninas pra gente tentar lembrar do que aconteceu.
Thalia
Eu estou ferrada. Só isso. Não lembro de quase nada, mas o que lembro não é muito legal.
- Flor, acorda! Soph?
Chamei as duas, que foram levantando bem lentamente, provavelmente pela dor de cabeça da ressaca.
- Não grita, Lia - Flor reclamou e eu ri.
- Não to gritando.
- Vamos aos fatos - Soph falou - Não lembro de nada do que aconteceu, mas eu...
Aí ela saiu correndo pro banheiro e foi vomitar.
- Flor, eu lembro de uma conversa nossa...
Ela fechou os olhos e implorou.
- Não conta pra ninguém, por favor.
- Não vou contar. Mas me explica direito.
Ela respirou fundo e sorriu triste.
- Eu sou tão cética com namoro e essas coisas porque eu já me apaixonei antes.
Eu lembrava disso. Ela tinha falado enquanto dançávamos.
- Pelo Danny - eu falei, assentindo.
Ela olhou nervosamente para a porta do banheiro, mas ouvimos o chuveiro sendo ligado, então ela continuou.
- Eu tinha 15 anos e ele 17. Ele e o Tom chegaram lá em casa super bêbados. Quando vi, no meio da madrugada, ele entrou no meu quarto. Não sei se errou de porta - ela deu de ombros - mas me viu e pediu pra deitar na minha cama comigo. Eu deixei - ela fechou os olhos como se fosse uma lembrança muito dolorosa - e então ele me beijou. E foi perfeito. E como uma coisa leva a outra, quando vi, estava perdendo a virgindade com ele.
Assenti, esperando.
- Nunca falamos sobre isso. No dia seguinte quando acordei ele já tinha ido embora. Falou normalmente comigo, como se nunca tivesse acontecido nada.
E aí ela começou a chorar. E me abraçou.
- Não fique assim. Todas já passamos por algo parecido.
Enxuguei suas lágrimas e ela logo se recompôs. Pensei no Harry e como eu imaginei ter visto ele ontem quando fiquei com um carinha na boate.
- Mas por que a gente começou esse assunto ontem?
- Sei lá - pensei - acho que você falava que a Sam não merecia ele, que ela não amava ele, porque...
Arregalei os olhos ao lembrar e ela também. E nessa hora meu celular tocou.
- Estão aonde?
- Na Flor, por que?
- Estamos indo para aí, tá?
Nem esperou a resposta e desligou.
- Elas estão vindo.
Bela
Chegamos na casa da Flor e todas estavam com uma cara estranha. Soph parecia doente. Lia e Flor estavam preocupadas.
- Ok. Desembucha. Quem lembra de alguma coisa?
- Eu tenho alguns flashs, mas eu estava muito bêbada pra raciocinar - Lia falou.
- Com certeza não estava raciocinando. Você ficou com cinco ontem.
- Eu fiz o quê? - Thalia gritou, fazendo com que nós quatro tapássemos os ouvidos.
- Cala a boca - Soph resmungou, ainda enjoada.
- Desculpe. Mas que história é essa? Lembro de ter ficado com um só...
- Bom, você ficou com gêmeos loiros - pensei - e teve aquele com um cabelo liso preto e um muito feio. E teve o ruivo. Você ficava dizendo o quanto amava meninos de cabelo ruivo. Mas aí você deixou ele sozinho na pista e saiu correndo chamando alguém. Mas logo voltou chorando. Ficamos sem entender nada.
Ela balançou a cabeça em descrença.
- Não é possível...
- E a Flor ficou se lamuriando - Soph falou com a mão na boca - porque o James não estava lá e ela estava com frio.
- E a Bela - Sam sorriu marotamente - ficou com um cara loiro e chamou ele de Tom. "Gosto do irmão da Flor, mas não o amo" - ela fez uma imitação horrível da minha voz e riu.
- E a Soph - eu quis sacanear também - dançou até o chão e deu em cima do barman.
- Claro que não, eu amo o Doug.
- Eu sei, mas o barman quase te beijou.
- Que absurdo! - ela gritou, mas se arrependeu - nunca mais volto lá.
- Duvido - Flor riu.
Ficamos caladas e todas olharam pra Sam.
- Você lembra o que você fez, Sam? - Flor perguntou séria.
Ela só negou com a cabeça, engolindo em seco.
- Você traiu o Danny - Soph pareceu lembrar, tapando a boca com a mão.
- Meu Deus! - exclamei abismada.
Sam não respondeu nada, mas abaixou o olhar, envergonhada.
- O que você vai fazer? - Perguntei.
- Vocês não vão contar nada, né? - ela nos olhou aflita.
- Não - Lia respondeu - Você vai.
- O quê? Não posso fazer isso.
- Sam, posso ser sincera? - me atrevi a opinar - Acho que se você traiu ele, não o amava. E deve contar pra ele.
- Ah é? Falou a corna, né? Teu ex te traiu, mas você não lembra disso né?
Ela jogou na minha cara e senti as lágrimas começando a esquentar o meu rosto.
- Sam, cala a boca! - Flor brigou.
- Não acredito nisso - Lia repreendeu e veio me abraçar.
- Sam, isso não se faz.
- Deixa, gente - já não enxergava direito, estava tudo embaçado.
Ficamos em silêncio até a Sam se pronunciar.
- Desculpa, Bela. Não foi minha intenção te atingir. Eu só estou desesperada sem saber o que fazer.
- Sabe o que me fez perdoar o Tom quando ele me contou nossa história depois do acidente? - demorei um pouco pra responder - A sinceridade dele. Ele foi sincero quando podia ter abafado tudo. Eu não lembraria de qualquer forma - dei de ombros.
Sophia
Sam começou a chorar. Mas não foi aquele choro falso que ela fazia só por puro charme. Era um choro desesperador. Como se a vida dela tivesse acabado.
- Olha, Sam - falei - você tem duas opções: ou não conta e vive escondendo isso dele, o que não vai ser fácil, já que você ficará com muito peso na consciência. Acredite, experiência própria - elas me olharam e eu acrescentei - Não com o Doug, pelo amor de Deus - e me voltei pra Sam novamente - Ou conta tudo e espera pra ver.
- A gente não vai contar pra ninguém - Lia soltou a Bela e colocou a mão sobre o ombro da Sam.
- Mas cabe a você resolver o que fazer - Bela suspirou.
Flor estava quieta e olhava pras próprias mãos, mas aparentemente fui a única a perceber isso.
- A não ser - Flor falou depois de um silêncio incômodo - que você não goste dele de verdade - e deu de ombros.
- Flor - Lia advertiu.
- O que foi? Só estou dizendo que ela não parece do tipo de namorada apaixonada. Parece estar com ele por interesse.
- Não me venha você falar de paixão, por favor, Dona Flor e seus três maridos - Sam vociferou e Thalia entrou no meio.
- Não comecem, por favor - ela massageou as têmporas e expirou profundamente.
- Ela tem razão - Bela entrou na conversa - Somos amigas, não somos?
Então todas olhamos para a Bela porque era estranho ouvi-la dizer que éramos suas amigas. Era a primeira vez que ela dizia isso depois de perder a memória.
- Olha, não sei vocês, mas preciso ir pra casa tomar um remédio urgente - falei, já sentindo um gosto desagradável.
- Que horas são? Preciso cuidar da Alice hoje.
Ninguém respondeu a Thalia, mas ela pegou o próprio celular e viu.
- To indo, gente. Qualquer coisa, me liguem.
E saiu.
- Gente, a conversa está muito boa - ok, eu menti - mas tenho que ir, antes que vomite a casa da Flor toda.
Saí da casa já ligando pro meu Dougster, já que não tinha conseguido falar com ele ontem à noite.
- Oi, bebê.
- Bom dia, amor - a voz dele era arrastada e parecia que ele tinha acabado de acordar.
- Acordou só agora? O que o senhor ficou fazendo a noite toda?
- Jogando GTA. Cansei das prostitutas, Soph. Será que você pode passar aqui?
Ri da piadinha infame dele e estava feliz por ele não ser tão ciumento quanto outros caras que conheço.
- Vai você lá pra casa. Eu to passando muito mal e to quase chegando lá.
- Fácil. To no Danny. Quando chegar me liga que eu vou pra lá. Mas que história é essa? Encheu a cara ontem, né? Me traiu não, né?
Ele parecia uma máquina de soltar palavras, mas sem pontuação. Falava rápido demais e eu ri.
- Sabe que nesse mundo eu só quero você, amor.
Harry
Mas uma vez eu a encontrei na DAN com um cara, mas quando esperei que ela o afastasse, ela o beijou. Eu precisava partir, mas tinha que conseguir encontrar um novo Pajé pra tribo. Quando o Pajé morreu na minha presença, eles tiveram certeza de que eu havia sido enviado pelo deus deles. Eu sabia que não tinha sido. Que havia sido pura coincidência. Eu precisava partir. E pra isso, precisava de um substituto.
- Harry?
Thalia tinha olhado na minha direção e de repente começou a correr tropega até mim.
"Ela está bêbada", pensei.
Saí de perto antes que me alcançasse. E voltei pra África. Totalmente desiludido.
"Achei que ela ainda pensasse em mim. Queria que ainda pensasse em mim, porque ainda penso nela".
Voltei por que sentia falta. Não queria de fato conversar com ela, não depois de tê-la abandonado. Eu queria vê-la. Queria entrar nos seus sonhos como já havia feito diversas vezes. E então dizer por lá como tem sido difícil sem ela. Sem seu riso doce que me arrepia. Sem seu mau humor matinal. Sem seu sorriso exausto no fim do dia e sem seu rosto sereno ao adormecer. Queria que ela soubesse que eu a amava. Que eu queria tê-la conhecido antes de tudo isso acontecer. Queria tê-la pra mim.
Cheguei rapidamente à África. Havia me aperfeiçoado nesse lance de me teletransportar por aí. Teria sido muito mais fácil se pudesse fazer isso quando vivo.
Fui recebido pelos indígenas com festa. Mataram dois porcos selvagens e fizeram o suco da vergonha, como chamavam. Era algo alcoólico, feito artesanalmente.
Cantamos, dançamos e conversamos. E eles mal sabiam que aquela festa de boas vindas eu torcia para que virasse a minha despedida.
Danny
Sam chegou na minha casa chorando, expulsando o Doug de lá - ele já estava de saída, pois ia encontrar com a Soph.
- O que houve, amor?
- Eu sou horrível, Danny. Sou a pior namorada do mundo.
Quando ela falou isso eu congelei. Já sabia o que viria. Podem me chamar de lerdo, mas sei fazer dois mais dois. Minha namorada saiu ontem pra boate com as amigas, chega no dia seguinte chorando na minha casa. Já sabia o que diria.
- Eu... Foi sem querer, Danny. Eu bebi demais ontem e acabei... Quero dizer... Eu não sei nem como te falar isso.
Suspirei.
- Você me traiu, Sam?
Ela arregalou os olhos e logo em seguida abaixou a cabeça.
- Não precisa responder.
Eu estava calmo. Não pergunte o motivo.
- Você... Você está bravo comigo?
Ela parecia uma criança de dez anos quando faz besteira.
- Sam - segurei seu rosto de forma protetora - eu gosto de você. Não conseguiria ficar com raiva de você.
- Então... - seus olhos inchados brilharam - então você me perdoa?
- Claro que perdoo.
Eu estava arrasado. Isso era um fato. Mas não estava mesmo com raiva dela. Estava com raiva de mim. Raiva por sempre confiar demais nas pessoas. Raiva por nunca tomar precauções necessárias ao me aproximar demais de alguém.
- Ai meu amor. Obrigada - ela veio em minha direção, para um beijo. Mas eu virei o rosto.
- O que houve? Não disse que me perdoava? - sua feição agora era de raiva e eu fiquei indignado. Como assim ela estava com raiva de mim? Deveria ser ao contrário, não?
- Disse que te perdoava. Mas não disse que voltaria a confiar em você. E me desculpe, Sammy, mas um relacionamento pra mim é baseado na confiança.
- O que você está dizendo?
- Que eu não sou mais seu namorado.
E então, ela voltou a chorar, dessa vez mais ainda. Andou a passos largos até a porta e fechou com força, me deixando lá parado, pensando em nós dois.
Dougie
- O que aconteceu com a Sam? - foi uma das primeiras coisas que perguntei pra Soph quando cheguei lá.
- Por quê? - ela perguntou, em alerta.
- Sei lá. Chegou chorando no Danny e me expulsou de lá.
- Não sei se posso te contar - ela mordeu a parte interna da bochecha.
- Meu Deus - de repente veio uma luz e eu finalmente entendi - Ela tá grávida, não tá?
Sophia começou a gargalhar e demorou a me responder.
- Claro que não - ela enxugou uma lágrima, ainda rindo de leve - pior que isso.
Isso me fez pensar. O que poderia ser pior que sua namorada grávida?
- Não acredito! Ela tem HIV!
Agora ela riu ainda mais e saíam lágrimas descontroladamente.
- Ao invés de você ficar na dúvida se ri ou chora, você podia me contar o que aconteceu, né?
Ela me olhou com carinho e me beijou.
- Desculpa, amor. Regulamento das meninas não permite. Não posso contar.
Ela fez uma carinha triste e eu deixei esse assunto pra lá. Afinal, o que eu tinha a ver com o que acontecia ou deixava de acontecer no relacionamento do Danny com a Sam?
- O que vamos fazer hoje? - Ela mudou de assunto.
- Pensei em um cinema, restaurante... Algo leve. Mas será que a gente pode cochilar um pouco antes de irmos? Passamos a noite jogando videogames e eu to cansado.
Ela riu, me abraçou e me conduziu até a sua cama. Dormimos por três horas seguidas.
Thalia
Eu estava exausta e Alice não parava um segundo.
- Lia, eu quero te contar uma coisa - ela puxava o meu vestido enquanto eu andava lentamente até o meu quarto, ignorando-a.
- Alice, se eu descansar meia horinha, você pode me contar o que quiser.
- É sobre o Harry.
Enrijeci a postura e fiquei logo alerta. Qualquer resquício de sono havia sumido.
- Sabe, ele apareceu pra mim ontem à noite. Mas foi no meu sonho. Ele estava diferente, irmã. E muito triste.
Fiquei enfurecida. Como ele ousava perturbar a minha irmãzinha? Logo agora que ela havia superado sua partida...
- Não quero saber dele, Alice.
- Mas maninha, ele sente a sua falta. Ele disse que ficou triste com você. Que você não sente mais a falta dele.
Então eu chorei. Chorei de angústia e nada seria capaz de me fazer parar. Deitei na minha cama e enfiei o rosto no travesseiro enquanto soluçava descontroladamente.
- Não chora, irmã.
Alice veio choramingando e sentou ao meu lado, passando sua mão minúscula pelo meu cabelo.
Só consegui chorar mais ao sentir seu corpinho me abraçar e suas lágrimas começarem a cair.
- Não, bebê. Não fica assim.
Virei na hora para acalmar a minha irmã, mas quando ela me olhou, chorou mais ainda. E eu também. Fomos vencidas pelo cansaço e dormimos abraçadas, com lágrimas nos olhos.
Sam
Eu não acredito! Até agora eu não acredito que ele me dispensou! Meu Deus, o que fiz pra merecer isso? Tá, eu traí ele, mas isso não justifica, né?
- O que foi, filha?
Para a minha surpresa, minha mãe estava em casa quando cheguei.
- Foi o Danny, não foi?
- Mãe, me deixa em paz, por favor?
- Sam, volta aqui...
Ela foi me chamando, mas eu já tinha me trancando no quarto e rasgava todas as nossas fotos que ficavam expostas. Depois peguei seus cartões e picotei cada um.
- Se você pensa que vai me afundar, Daniel Jones, fique esperando. Hoje você me dispensa. Amanhã vai implorar por mim.
Mas uma vez eu a encontrei na DAN com um cara, mas quando esperei que ela o afastasse, ela o beijou. Eu precisava partir, mas tinha que conseguir encontrar um novo Pajé pra tribo. Quando o Pajé morreu na minha presença, eles tiveram certeza de que eu havia sido enviado pelo deus deles. Eu sabia que não tinha sido. Que havia sido pura coincidência. Eu precisava partir. E pra isso, precisava de um substituto.
- Harry?
Thalia tinha olhado na minha direção e de repente começou a correr tropega até mim.
"Ela está bêbada", pensei.
Saí de perto antes que me alcançasse. E voltei pra África. Totalmente desiludido.
"Achei que ela ainda pensasse em mim. Queria que ainda pensasse em mim, porque ainda penso nela".
Voltei por que sentia falta. Não queria de fato conversar com ela, não depois de tê-la abandonado. Eu queria vê-la. Queria entrar nos seus sonhos como já havia feito diversas vezes. E então dizer por lá como tem sido difícil sem ela. Sem seu riso doce que me arrepia. Sem seu mau humor matinal. Sem seu sorriso exausto no fim do dia e sem seu rosto sereno ao adormecer. Queria que ela soubesse que eu a amava. Que eu queria tê-la conhecido antes de tudo isso acontecer. Queria tê-la pra mim.
Cheguei rapidamente à África. Havia me aperfeiçoado nesse lance de me teletransportar por aí. Teria sido muito mais fácil se pudesse fazer isso quando vivo.
Fui recebido pelos indígenas com festa. Mataram dois porcos selvagens e fizeram o suco da vergonha, como chamavam. Era algo alcoólico, feito artesanalmente.
Cantamos, dançamos e conversamos. E eles mal sabiam que aquela festa de boas vindas eu torcia para que virasse a minha despedida.
Danny
Sam chegou na minha casa chorando, expulsando o Doug de lá - ele já estava de saída, pois ia encontrar com a Soph.
- O que houve, amor?
- Eu sou horrível, Danny. Sou a pior namorada do mundo.
Quando ela falou isso eu congelei. Já sabia o que viria. Podem me chamar de lerdo, mas sei fazer dois mais dois. Minha namorada saiu ontem pra boate com as amigas, chega no dia seguinte chorando na minha casa. Já sabia o que diria.
- Eu... Foi sem querer, Danny. Eu bebi demais ontem e acabei... Quero dizer... Eu não sei nem como te falar isso.
Suspirei.
- Você me traiu, Sam?
Ela arregalou os olhos e logo em seguida abaixou a cabeça.
- Não precisa responder.
Eu estava calmo. Não pergunte o motivo.
- Você... Você está bravo comigo?
Ela parecia uma criança de dez anos quando faz besteira.
- Sam - segurei seu rosto de forma protetora - eu gosto de você. Não conseguiria ficar com raiva de você.
- Então... - seus olhos inchados brilharam - então você me perdoa?
- Claro que perdoo.
Eu estava arrasado. Isso era um fato. Mas não estava mesmo com raiva dela. Estava com raiva de mim. Raiva por sempre confiar demais nas pessoas. Raiva por nunca tomar precauções necessárias ao me aproximar demais de alguém.
- Ai meu amor. Obrigada - ela veio em minha direção, para um beijo. Mas eu virei o rosto.
- O que houve? Não disse que me perdoava? - sua feição agora era de raiva e eu fiquei indignado. Como assim ela estava com raiva de mim? Deveria ser ao contrário, não?
- Disse que te perdoava. Mas não disse que voltaria a confiar em você. E me desculpe, Sammy, mas um relacionamento pra mim é baseado na confiança.
- O que você está dizendo?
- Que eu não sou mais seu namorado.
E então, ela voltou a chorar, dessa vez mais ainda. Andou a passos largos até a porta e fechou com força, me deixando lá parado, pensando em nós dois.
Dougie
- O que aconteceu com a Sam? - foi uma das primeiras coisas que perguntei pra Soph quando cheguei lá.
- Por quê? - ela perguntou, em alerta.
- Sei lá. Chegou chorando no Danny e me expulsou de lá.
- Não sei se posso te contar - ela mordeu a parte interna da bochecha.
- Meu Deus - de repente veio uma luz e eu finalmente entendi - Ela tá grávida, não tá?
Sophia começou a gargalhar e demorou a me responder.
- Claro que não - ela enxugou uma lágrima, ainda rindo de leve - pior que isso.
Isso me fez pensar. O que poderia ser pior que sua namorada grávida?
- Não acredito! Ela tem HIV!
Agora ela riu ainda mais e saíam lágrimas descontroladamente.
- Ao invés de você ficar na dúvida se ri ou chora, você podia me contar o que aconteceu, né?
Ela me olhou com carinho e me beijou.
- Desculpa, amor. Regulamento das meninas não permite. Não posso contar.
Ela fez uma carinha triste e eu deixei esse assunto pra lá. Afinal, o que eu tinha a ver com o que acontecia ou deixava de acontecer no relacionamento do Danny com a Sam?
- O que vamos fazer hoje? - Ela mudou de assunto.
- Pensei em um cinema, restaurante... Algo leve. Mas será que a gente pode cochilar um pouco antes de irmos? Passamos a noite jogando videogames e eu to cansado.
Ela riu, me abraçou e me conduziu até a sua cama. Dormimos por três horas seguidas.
Thalia
Eu estava exausta e Alice não parava um segundo.
- Lia, eu quero te contar uma coisa - ela puxava o meu vestido enquanto eu andava lentamente até o meu quarto, ignorando-a.
- Alice, se eu descansar meia horinha, você pode me contar o que quiser.
- É sobre o Harry.
Enrijeci a postura e fiquei logo alerta. Qualquer resquício de sono havia sumido.
- Sabe, ele apareceu pra mim ontem à noite. Mas foi no meu sonho. Ele estava diferente, irmã. E muito triste.
Fiquei enfurecida. Como ele ousava perturbar a minha irmãzinha? Logo agora que ela havia superado sua partida...
- Não quero saber dele, Alice.
- Mas maninha, ele sente a sua falta. Ele disse que ficou triste com você. Que você não sente mais a falta dele.
Então eu chorei. Chorei de angústia e nada seria capaz de me fazer parar. Deitei na minha cama e enfiei o rosto no travesseiro enquanto soluçava descontroladamente.
- Não chora, irmã.
Alice veio choramingando e sentou ao meu lado, passando sua mão minúscula pelo meu cabelo.
Só consegui chorar mais ao sentir seu corpinho me abraçar e suas lágrimas começarem a cair.
- Não, bebê. Não fica assim.
Virei na hora para acalmar a minha irmã, mas quando ela me olhou, chorou mais ainda. E eu também. Fomos vencidas pelo cansaço e dormimos abraçadas, com lágrimas nos olhos.
Sam
Eu não acredito! Até agora eu não acredito que ele me dispensou! Meu Deus, o que fiz pra merecer isso? Tá, eu traí ele, mas isso não justifica, né?
- O que foi, filha?
Para a minha surpresa, minha mãe estava em casa quando cheguei.
- Foi o Danny, não foi?
- Mãe, me deixa em paz, por favor?
- Sam, volta aqui...
Ela foi me chamando, mas eu já tinha me trancando no quarto e rasgava todas as nossas fotos que ficavam expostas. Depois peguei seus cartões e picotei cada um.
- Se você pensa que vai me afundar, Daniel Jones, fique esperando. Hoje você me dispensa. Amanhã vai implorar por mim.