Florence
Ainda não consegui assimilar o que aconteceu. James acabou de terminar comigo? Calma, ele não pode ter terminado comigo, afinal, não temos nada, né?
- Lia, eu to surtada.
Liguei pra primeira pessoa que passou pela minha cabeça. Thalia. Ela não me julgaria. Combinamos que ela ficaria um pouco aqui em casa e eu fui ao posto de gasolina comprar bebida. Precisava desestressar.
- Oi Lia - beijei seu rosto e deixei que entrasse no meu apartamento.
- O que aconteceu, sua louca? Quer me matar do coração?
Eu não tinha dito o que tinha acontecido e ela veio aparentemente correndo, achando que era algo grave. Mas é!!!
- Desculpa, Lia, mas eu to desesperada. O James terminou comigo.
E foi aí que eu desabei. Eu. Florence. Chorando por um cara. Talvez seja o Apocalipse.
- Calma, Flor - Lia me abraçou e deu tapinhas de consolo nas minhas costas - Vem, vamos sentar.
Andamos até o sofá e eu peguei a vodca em cima da mesa no caminho.
- Que isso, garota? Afogando as mágoas? - seu tom era brincalhão, mas sua feição era preocupada.
- Desilusão amorosa só se cura com vodca, sorvete ou chocolate.
- E dos três você tinha que escolher esse, né?
Parei e pensei que realmente estava parecendo uma alcoólatra Mas não liguei. Girei a tampa e ouvi o lacre romper. Abri a garrafa e dei uma golada.
- Espera - Thalia foi até a cozinha e voltou com dois copos e uma garrafa de soda limonada - Se vamos fazer isso, pelo menos vamos parecer civilizadas.
Enchi nossos copos e ficamos caladas até que suspirei pesadamente.
- Por que me chamou aqui, Flor? Acho que deveria ter chamado o James, não?
Sacudi minha cabeça em negação.
- E falar o que? "James, sinto sua falta, por favor, não termine comigo, eu gosto de você, vamos namorar, casar e ter filhos".
- É - ela franziu o cenho - bom, talvez você queira deixar de lado a parte de casar e ter filhos.
Eu ri e virei o meu copo, sendo seguida pela Thalia. Enchemos nossos copos de novo e ela ficou me dando conselhos sobre como abordar o assunto com James.
- Acho que deve ser honesta com ele. Não faz sentido se privar da felicidade - Thalia fica um pouco filosófica quando bebe.
- Verdade - concordei - vou ligar pra ele agora.
- Não acho que seja uma boa ideia, Flor. Deixa pra fazer isso pessoalmente.
- Não - podia sentir minha língua se enrolando e uma súbita necessidade de ligar pra ele. Peguei o telefone e antes que Thalia conseguisse tirar da minha mão, disquei seu número.
- James? Anh? To bem. Não estou bêbada! Estamos bebendo só um pouquinho aqui. Mas na verdade, queria que você viesse pra cá. Precisamos conversar. É. Ok. Beijo.
Thalia me encarava ansiosa, esperando que eu contasse.
- Ele está vindo. O que significa que...
- Eu vou ter que ir embora.
- Desculpe. Não quis te expulsar.
- Relaxa - ela deu de ombros - de qualquer forma, tenho que dormir cedo.
Continuamos nossa conversa e tomamos drinks, até que a campainha tocou. Levantei em um pulo e Lia também levantou, acenando e me encorajando.
- Vai - sussurrou.
- Oi James - falei assim que abri a porta, me esforçando ao máximo pra parecer sóbria.
- Oi James, Tchau James - Thalia passou por mim e deu uma piscadela - Beijo, Flor.
Ela saiu meio cambaleante e me achei irresponsável por não deixá- la ficar aqui. Mas agora James me esperava e Thalia teria que conseguir se virar sozinha.
Danny
Quando os amigos estão juntos, não rola só besteira. Também sabemos falar de coisas sérias.
- E eu não sei onde as coisas vão parar - Doug concluiu ao nos contar sobre suas constantes brigas com a Sophia.
- Cara, tenta resolver o mais rápido possível - Tom começou - porque conversar logo no começo da crise é melhor.
- É cara - eu pensei - às vezes eu me arrependo de ter terminado com a Sam, mas acho que esse tipo de traição não tem perdão. Ou pelo menos não tem perdão imediato.
- Sai pra lá com esse papo de traição - Doug fez o sinal da cruz - Nunca traí e nem fui traído - ele olhou primeiro pro Tom e depois pra mim - e pretendo continuar assim. Eu vou tentar conversar com a Sophia assim que der.
- Cara, vocês não estão brigando por causa do GB?
- Na maioria das vezes sim, Tom. E aí como isso acaba deixando ela muito irritada, tudo é descontado em mim.
Tom pareceu pensar.
- Então por que não contrata um adestrador? Pra ensinar o cachorro, assim ele não mija mais a casa toda e não irrita a Soph.
- Porra, Tom, tu é um gênio - Dougie fez um "high five" com o Tom e eu tentei entrar no meio pra não me sentir forever alone, mas o que consegui foi levar um tapa do Doug na cara - Foi mal, cara.
E aí eles começaram a rir.
- Gente, vou lá na Sophia. Mas antes faz um miojo pra mim, Danny?
Olhei pra ele com incrédulo, mas aí ele fez aquela cara de cachorrinho com fome e eu não resisti. Fiz uma porcaria de um miojo pra ele. E ainda fiz suco de uva de polpa congelada.
- Cara, se quiser me dar essa mousse de sobremesa...
Ele falou e apontou pra uma mousse de chocolate que eu tinha comprado na padaria mais cedo. Nem esperou pela resposta e já foi pegando. Tom riu.
- Quer mais alguma coisa? Uma cama feita? Um cobertor quentinho? Chocolate quente?
- Não, mas se você puder pegar uma colher pra mim...
Peguei a colher e taquei nele. Mas ele acabou desviando e quase que arranco um olho do Tom.
- Ei - ele gritou de indignação.
- Foi mal cara. Era pra acertar o Doug...
- Caraca, mas não te fiz nada...
Olhei pra ele e fiz a minha melhor cara de "sério isso?".
- Tá, desculpa. Quer um pouquinho da minha mousse?
Tom riu tanto que se jogou no chão. Eu demorei pra entender que ele estava sendo irônico e me oferecendo a MINHA mousse...
Sophia
Eu estava me divertindo com o Bernardo. Ele era encantador e me elogiava sempre que podia. Me sentia bem ao seu lado.
- Aí foi assim que a gente conseguiu escapar da nevasca de lá. Mais trinta segundos e acho que não estaria aqui pra contar a história.
- Nossa, seu dramático.
Tínhamos muito em comum e ele era fácil de conversar. Eu não precisava parecer legal perto dele.
Tivemos um minuto de silêncio em que percebi claramente suas intenções para comigo. Ele me olhou daquele jeito, sabe? Com o olhar inflamado de desejo. E aí eu pensei no Doug e me senti culpada. Terminei o meu drink - perdemos as contas de quantos tomamos - e levantei. Notei que havia passado da conta quando bateu aquela tontura e torci pra que os paparazzi não percebessem.
- Opa - ele falou ao segurar meu braço.
- Estou bem - me desvencilhei delicadamente dele, não querendo ser rude - mas acho melhor ir pra casa. Já está tarde.
- Poxa, Soph. Está encurtando minha noite, percebe isso, estraga prazeres?
Ele riu e continuou andando ao meu lado. Enlaçou nossos dedos e olhou bem nos meus olhos. Estremeci.
- Aonde está indo?
- Acha que vou deixar você ir embora sozinha? Vou acompanhá-la até o seu apartamento.
Não discuti. Achava mesmo que precisava de ajuda pra chegar em casa.
Chegamos ao elevador e eu apertei o número do meu andar. Abri a porta de casa e me despedi.
- Bom, obrigada, Bê.
Mas ele forçou passagem e sentou no sofá.
- Vou ficar até você dormir.
E sorriu. Aquele sorriso cativante e quente. Parte de mim queria que ele ficasse. A outra parte - um pouquinho menor, admito - queria que ele fosse embora. Então apenas dei de ombros. Ele entendesse como quisesse.
- Então boa noite - disse apenas e sorri, indo até o meu quarto.
Tomei uma ducha e coloquei uma camisa do Doug que estava lá em casa. Ainda tinha o seu cheiro e eu amava aquele perfume. Meu micro short de dormir já estava em cima da cama e eu o vesti. Deitei na minha cama e dez minutos depois, Bernardo abriu a porta, sem bater, entrando no quarto sem ser convidado.
- Isso é invasão de propriedade - brinquei.
- Vim só te ajudar a relaxar antes de dormir.
Então ele subiu na minha cama, me virou de bruços e levantou a minha camisa. Começou a massagem com aquelas mãos espetaculares e em algum momento soltei um gemido de prazer bem baixinho. Logo depois senti seu membro enrijecer e fiquei envergonhada. Me virei a fim de ficar de frente pra ele.
- Por favor, pare.
E então a porta abriu. E o Doug entrou no meu quarto.
- Então quer dizer que você deixou esse cara - ele apontou para o Bê com cara de nojo - deitar em cima de você?
- Não foi nada disso, Doug - eu já tinha contado a história milhões de vezes. Ele estava bem descontrolado e tinha tentado bater no Bernardo - você sabe que eu nunca te trairia...
- Sei, Sophia? Tem certeza? - sua voz estava alterada - Porque depois do que eu vi, não sei se posso confiar...
- Cara, ela já falou, era só uma massagem... - Bernardo tentou dizer, mas foi interrompido pelo Doug.
- Você fica bem quietinho aí porque a minha vontade é de arrebentar a tua cara. Cala essa boca!
- Doug, fica calmo - tentei soar tranquila, mas sabia que se o visse com outra garota assim, ficaria do mesmo jeito. Ou pior.
- Sophia, eu não estou aguentando ouvir a sua voz - seu semblante de repente passou de irritado para cansado - Eu estou me sentindo completamente traído. Queria companhia até em casa? Era só me ligar. Eu ficaria super feliz em te buscar naquela festa idiota.
- Mas você esta sem carro - a verdade era que nem havia passado pela minha cabeça ligar pra ele.
- Isso não é desculpa. Danny tem carro, Tom também. Eu poderia pedir emprestado. E existe uma coisa chamada táxi...
Sua voz foi murchando e eu senti um nó horrível se formar na minha garganta. Sabia que queria chorar.
- Se não tiver mais nada pra falar... - ele foi se dirigindo à porta depois de um minuto de silêncio.
- Não vá, Doug - soou meio teatral, mas eu queria que ele ficasse.
- Esquece, Sophia. Acabou.
E assim ele abriu a porta e rapidamente fechou atrás de si, deixando claro que não estávamos mais namorando.
Caí no choro desejando nunca ter conhecido o Bernardo.
Florence
James estava chateado comigo, mas eu sabia que estava curioso pra saber o que eu queria com ele tão tarde.
- Bom, eu te chamei aqui porque fiquei confusa.
- Agora eu que estou confuso - ele franziu o cenho - acho que fui claro o suficiente pra não te deixar confusa.
Ele trocou o peso de uma perna pra outra e eu mordi o lábio inferior.
- Sabe, James. Desde que começamos a ficar eu já fiquei com vários caras - ele assentiu, claramente magoado - mas nunca te troquei.
- Poxa, Flor. Que honra - ele disse com ironia.
- Me deixe terminar, por favor. Depois você fala o que quiser.
Ele ficou calado, o que foi um incentivo para eu continuar.
- Como disse antes, fiquei com muitos outros caras, mas sempre com você. Nunca quis terminar com você. Eu sempre cansava dos outros, mas não de você. E demorei pra perceber, James. Mas eu nunca deixei você ir embora porque... - fechei os olhos com força e expirei - porque eu realmente gosto de você, James - falei e abri os olhos, vendo a expressão de surpresa que estampou no seu rosto - porque eu te amo.
Depois de uns trinta segundos em silêncio, comecei a me sentir uma tola.
- Esta é a hora em que você fala alguma coisa...
- Flor, eu... - ele coçou a cabeça - você me pegou totalmente de surpresa.
- E isso é bom ou ruim?
Tinha plena consciência de que ele estava me deixando nervosa e eu estava começando a parecer desesperada.
- Flor, eu quero muito te responder, mas eu não sei o que dizer.
Meus olhos se fecharam mais uma vez e quando eu os abri, James não estava mais na minha frente. Ele havia andado até a minha vitrola e trocava o disco. Escolheu a faixa e andou na minha direção. Imediatamente começou a tocar "eight days a week" dos Beatles e ele segurou meu rosto, me beijando.
- Eu não quero ter hora e dia marcado pra te ver, Flor. Eu quero ter você por todos os dias.
Eu sorri.
- Florence Fletcher...
Sorri mais ainda.
- Você quer namorar comigo?
Meu sorriso já não cabia mais no meu rosto. Sentia a pele repuxando.
- Quero? - perguntei pra mim mesma - Quero! - respondi pra ele - Quero muito!
E o beijei. E bom, o resto você já sabe.
Dougie
Eu jurei a mim mesmo que não ia chorar. Mas assistir àquela cena foi demais pra mim. Assim que coloquei os pés na orla, a primeira lágrima caiu, seguida de muitas outras. Chorava e conversava comigo mesmo, dizendo que não a perdoaria. Por mais que eu a amasse muito. Doeu demais o que ela fez.
Sentei em um banco de concreto um pouco longe de um quiosque e resolvi ficar lá até me acalmar. Não queria que ninguém do meu prédio me visse chorando como um maricas.
- Ouch - ouvi alguém gritar, segurando o dedão do pé esquerdo e pulando no pé direito. Devia ter dado uma topada. Era uma garota e ela parecia estar bêbada. Resolvi não fazer nada, até que reconheci quem era.
- Thalia? - perguntei logo que me levantei.
Ela me encarou como se tentasse lembrar de onde me conhecia.
- Dooooug! - ela gritou e me abraçou calorosamente.
- Oi - disse sem graça com o abraço.
- O que está fazendo por aqui?
- Anh, eu... - fiquei sem jeito e resolvi não responder.
- Dã, que ideia a minha. Sophia mora logo ali. Acho que nunca reparei que a Flor morava tão perto do hotel.
Ela começou a soluçar e rir ao mesmo tempo.
- Sabe por que eu to soluçando?
Ela agora gargalhava.
- Porque você está bêbada como um jabuti no formol?
- Quê? Claro que não. É o golpe de vento nas costas. Dá soluço.
Ela me olhou como se eu fosse idiota por não ter percebido isso. Então tirei o meu casaco e ofereci a ela. Ela o colocou e incrivelmente o soluço passou. Comecei a caminhar lentamente ao seu lado.
- Thalia, pra onde é a sua casa?
- Pra lá, oras - ela apontou para a direção que estávamos indo e parou - ou será que é pra lá?
Apontou pro lado oposto e coçou a cabeça.
- Mas não faz diferença. Tenho que pegar um ônibus...
- Quer companhia até lá? - perguntei, com medo de deixá-la sozinha na rua.
Ela apenas deu de ombros. Agora estava bem calada.
- Não lembro como chegar em casa.
Suspirei. Nenhum de nós - tirando a Sam - sabia onde Lia morava. E com certeza não era tão perto a ponto de irmos à pé. Peguei o celular e mesmo sendo tarde, liguei pra Sam.
- Sua chamada está sendo encaminhada para caixa de mensagens e estará sujeita...
Desliguei. Não adiantava deixar uma mensagem de voz. Provavelmente só deixaria a Sammy irritada amanhã de manhã com aquele simbolozinho no alto do celular.
Suspirei de novo e não vi outra alternativa.
- Vamos lá pra casa.
Ela não falou nada e apenas me seguiu. Eu queria muito saber no que ela estava pensando, porque uma lágrima tímida escorreu pelo seu rosto.
Ela olhou bem pra mim e como se tivesse lido a minha mente, suspirou.
- Eu olho pra você e me lembro dele. O cabelo, o jeito espontâneo e engraçado, a bondade... sabe, eu o amava. E nunca tive a chance de dizer isso pra ele...
Ela agora tinha se calado novamente e eu fiquei imaginando de quem ela estava falando e o que tinha acontecido com os dois. Me solidarizei com ela. Nunca tinha entendido o jeito meio sério da Lia, mas agora percebia que de todos nós, ela era a única que levava a vida à sério. Não pensava só em sair o tempo inteiro. E nem em namorar. Trabalhava pra conseguir estudar. Os pais tinham muitas outras contas pra se preocupar com as dela. Ela era a única de nós que verdadeiramente era uma adulta.
Quando chegamos no meu apartamento, arrumei meu quarto - vulgo joguei tudo embaixo da cama - e troquei a roupa de cama. Ela já estava quase dormindo quando entrei na sala pra levá-la pra cama - não nesse sentido.
- Pode trocar de roupa se quiser.
Ela vestia uma calça jeans e uma blusa preta de renda, então separei uma blusa minha para que ela usasse.
- Doug - ela me chamou antes de entrar no banheiro e eu me virei, já à porta do quarto - Obrigada.
Assenti e fechei a porta atrás de mim, levando dois lençóis e um travesseiro pra sala. Arrumei o sofá e deitei nele.
Eram duas da manhã quando eu acordei com um barulho vindo do meu quarto. Abri a porta cautelosamente e encotrei Thalia vomitando. Corri para segurar sua cabeça e cabelos, pra que nenhum deles entrasse na privada.
- Calma, vou pegar um pouco de água pra você.
Já ia me levantar, mas ela me segurou.
- Não precisa, obrigada - sua voz era bem mais sóbria que antes, mas ainda não estava normal.
Ela se levantou e eu tentei não olhar diretamente para a sua calcinha fio dental preta que acentuava sua bunda. Ela ligou a torneira, bochechou e depois lavou o rosto.
- Você está olhando pra minha bunda, Doug?
Ela me olhou bem na hora que eu ia dar uma conferida.
- Eu...er... Tava só.
Ela bateu na minha cabeça e eu me levantei pra encará-la.
- Relaxa, Doug. Até parece que os homens não olham pra minha bunda quando eu estou no trabalho.
Fiquei sem ter o que falar, mas sabia que era verdade. Que homem em sã consciência iria a um bar onde a garçonete veste só biquine e não ia dar uma olhadinha?
- Bom, vou voltar a dormir. Obrigada por tudo, Doug.
Eu me alonguei e acabei me estalando todo. O sofá tinha acabado comigo. Thalia olhou pra mim e prensou os lábios.
- Quer deitar aqui? Acho que tem espaço suficiente pra nós dois.
Pensei na Soph. Mesmo sem ver maldade na Lia, sabia que ela não gostaria disso. Mas aí lembrei: nós havíamos terminado. Porque ela estava deitada com outro cara.
- Claro, vou só pegar meu travesseiro.
Quando voltei, Thalia já estava deitada e coberta. Sentei na cama, tirei meus chinelos e entrei embaixo do cobertor compartilhado com Thalia.
- Vê só se não puxa tudo pra você, tá?
Ela riu e eu rapidamente caí no sono.
Tom
Abri a minha caixa de entrada e tinha um e-mail da Bela. Cliquei e nele tinha uma foto anexada. Lembro perfeitamente do dia dessa foto. Nós dois gargalhávamos e ela estava radiante. Foi a segunda vez que Thalia caiu no trabalho. Dessa vez ela tropeçou nos próprios pés e derrubou tudo na Sophia. Só que elas eram amigas já, então todos riram. No corpo da mensagem só tinha uma frase.
"Não lembro dessa foto, mas eu definitivamente era muito feliz com você"
Não pude deixar de sorrir. Como eu a amava.
Logo depois recebi uma mensagem de texto da minha irmã dizendo pra não voltar pra casa porque ela estava no meio de uma DR com o James. Agora o que significa DR eu não sei e resolvi que não queria saber.
- Que sorriso bobo é esse, Tom?
Ainda estava na casa do Danny, mas Doug já tinha saído, então no começo ficamos meio desconsertados com o episódio Flor e Danny.
- Acabei de receber um email da Bela.
E mostrei pra ele.
- Que isso, ein, cara? Não conquistou a garota uma, mas sim duas vezes.
Sorri triste.
- Bem, era quase a minha obrigação. Afinal, eu praticamente causei o acidente dela.
- Cara - ele colocou a mão no meu ombro - quando você vai parar de se culpar por isso? Cada um reage diferente à tristeza. Ela que decidiu ir à praia e surfar. Não foi culpa sua.
Suspirei. Não era hora de ficar triste. Precisava sorrir e conquistá-la cada vez mais.
Já era tarde, mas mandei um sms pra Bela em resposta ao e-mail.
"E eu era muito feliz ao seu lado. Posso te ver hoje?"
Menos de um minuto depois ela me respondeu.
"Te espero na portaria."
Me despedi do Danny saí de lá o mais rápido possível. O trânsito estava livre e cheguei lá em menos de cinco minutos. Só espero não ter tomado uma multa.
Bela
Eu me sinto muito boba às vezes. Só de olhar o carro dele estacionando meu coração já começou a acelerar.
- Oi, Bels - ele chegou perto de mim e me deu um beijo. Era a primeira vez que a gente se beijava como cumprimento. Sorri.
- Oi Tom. Tava entediado?
- Tava com os caras. Mas fiquei com saudades.
Dei um beijo leve nele e segurei sua mão.
- Vamos comer alguma coisa?
Ele me puxou e eu fiquei na dúvida se teria alguma coisa aberta. Fomos até os bares e uns dois ainda estavam abertos.
- Vamos nesse - apontei para o menor.
Ele deu de ombros e fomos até lá. Como ninguém veio nos receber, escolhemos qualquer mesa e sentamos.
- Vai querer o quê? - Tom perguntou enquanto eu olhava o cardápio.
- Esse sanduíche aqui - mostrei um cheio de coisas que vinha com batata frita de acompanhamento.
- Ok - ele fechou o próprio cardápio - divido com você então.
- Er... Mas eu queria comer sozinha.
Ele levantou a sobrancelha.
- Bela, você já viu o tamanho do sanduíche? E ainda vem com batata frita.
- Eu sei, eu comi essa semana aqui com a minha irmã...
Me senti com vergonha por parecer uma gulosa, mas o Tom simplesmente começou a gargalhar.
- O que foi? Tudo bem, a gente pode dividir...
- Não é isso não - ele disse tentando respirar normalmente - é que você não mudou nada. A gente ia pro Outback e pedíamos a ribs com fritas, e você ainda pedia uma fries à parte só pra você.
- Eu o quê? - quase berrei - Cara, como sou magra assim? Não faz sentido. Como igual a uma porca...
- Sei lá. Seu metabolismo deve ser muito acelerado...
E enquanto comíamos, conversávamos coisas nada a ver e quando chegou a hora de ir embora, quis chorar. Não queria que ele fosse.
- Boa noite, Bela. Gostei muito do dia de hoje.
Mordi o lábio inferior e dei um beijo na sua boca. Ele retribuiu com maior intensidade.
- Quer subir? - perguntei em meio a um beijo.
- Mas e a sua irmã?
- Está dormindo desde a hora que eu saí.
Ele me deu um beijo mais intenso ainda. Eu já estava com as pernas bambas e certas partes pareciam que estavam pegando fogo.
Subimos pelo escada de incêndio e eu sabia que não aguentaríamos. Assim que chegamos no terceiro andar, nos beijamos mais uma vez e ele puxou o meu cabelo, depois me encostou na parede.
- Tem certeza? - ele perguntou baixinho.
Tirei a minha blusa em resposta. Ele tirou a dele. Passei a mão pelo seu corpo enquanto ele fazia o mesmo com o meu.
- Ai, Tom - gemi baixinho enquanto ele tirava a sua calça e logo depois a minha.
Não demorou muito pra tirarmos as peças íntimas e eu pulei em seu colo. Ele me pressionou mais contra a parede e eu gemi alto quando ele finalmente entrou em mim. Foi maravilhoso. Quando terminamos, arfávamos deitados em cima de nossas roupas quando ouvimos um barulho.
- O que foi isso? - sussurrei, mas ele já estava catando nossas roupas e me puxando para a saída do meu andar.
Estávamos pelados andando pelo meu andar - dei graças a Deus que sabia que a câmera não estava funcionando - e quando fui abrir a minha porta, a vizinha Tia Germa (a vovozinha que mora ao meu lado e eu não tenho ideia do que ela estava fazendo acordada a essa hora) saiu com o cachorrinho pinscher irritante dela.
- Ai meu Sao Cristin.
- Boa noite, Germa.
- Boa noite - Tom falou prendendo o riso e depois que entramos fiquei com medo da velha infartar.
Rimos muito quando chegamos no meu quarto.
- Shiiiu. Fala baixo, Tom.
Mas eu também prendia o riso. E quando finalmente paramos de rir, o clima ficou sexy de novo, o que nos levou a mais uma rodada.
Thalia
Acordei às dez da manhã e obviamente com uma dor de cabeça incrível. Tomei um susto ao perceber que não estava em casa e logo mandei uma mensagem de texto para a minha mãe dizendo que não se preocupasse, já que não tinha avisado que ia sair na noite anterior.
Senti um cheiro de waffles, mas não levantei de imediato. Minha cabeça me castigava e eu sabia que levantar agora seria pior.
- Bom dia - vi a cabecinha do Doug pairar ao lado da porta e agradeci por não ter levantado. Percebi que estava só de camisa e calcinha e imediatamente me envergonhei do meu "eu bêbado".
- Bom dia - respondi, sustentando um sorriso no rosto.
- Dormiu bem? - assenti e ele continuou - deixei uma toalha limpa e uma escova de dentes nova pra você no banheiro.
- Obrigada, Doug - sorri novamente e deu pra perceber que não era só pela toalha e a escova.
Ele fechou os olhos e sacudiu a cabeça, sorrindo.
- Não demore, ou o café da manhã vai esfriar.
Ele já ia saindo quando voltou.
- Café, Nescau ou suco de laranja?
- Não quero ser inconveniente.
- Para de graça.
Pensei.
- Suco de laranja, por favor.
- Um suco de laranja saindo.
E riu, já que aquela normalmente era a minha frase pra ele quando estávamos no bar.
Tomei meu banho e foi bom demais poder escovar os dentes. Coloquei de volta a minha roupa da noite anterior e saí do quarto.
- Fico feliz por ter sido você quem me achou perdida ontem à noite - disse envergonhada, enquanto ele colocava suco no meu copo.
- Também. Não queria passar a noite sozinho.
Ele disse isso e eu lembrei que em algum momento da madrugada eu acordei e ele estava me abraçando. Mas não um abraço do tipo "quero te pegar", mas sim um "preciso de um abraço, e como você é a minha única opção...". Deixei que me abraçasse. Eu também estava precisando de um.
- O que houve? - perguntei involuntariamente.
Ele hesitou, mas logo respondeu.
- Terminei com a Soph.
E aí ele me contou toda a história, o que me deixou embasbacada.
- Você realmente não acreditou nela?
Ele sacudiu a cabeça em negação.
- Você não viu a cena. Ele estava em cima dela. E estava com tesão. Eu... Deu pra perceber...
Sacudi a cabeça.
- Não acho que a Soph seria capaz de fazer isso com você, Doug. Ela te ama muito. Quando essa raiva passar, tenta conversar com ela. Tentar acertar as coisas...
Por uns dois minutos, só se ouvia o barulho dos nossos talheres no prato.
- O cara de quem você falou ontem... Era o Harry, não era?
Ele parecia desconsertado e eu devo ter ficado muito vermelha. Como ele sabia disso?
- Você chamou ele a noite quase toda. Dizia que o amava. E o chamava de Judd. Eu nem sabia que vocês se conheciam...
Nessa última frase ele pareceu bem pensativo. Eu resolvi ficar calada. Não queria mentir pra ele, mas não podia contar a verdade.
- Desculpa - ele rapidamente corou e colocou a mão em cima da minha - desculpa mesmo. Cara, como eu sou insensível. Deve ter sido horrível pra você quando ele...
E aí eu chorei. Foi idiota. Foi infantil. Mas eu levantei da cadeira e saí correndo pro quarto dele.
- Droga - ouvi Doug lamentar.
A verdade é que não tinha sido horrível quando ele morreu. Porque se ele não tivesse morrido, eu nunca teria me apaixonado por ele. Mas também se ele estivesse vivo, eu poderia...
- Lia? - Doug bateu à porta tímido, entrando e me abraçando. Só isso. Ficamos abraçados até que eu conseguisse parar de chorar.
- Doug, me promete uma coisa?
Ele se afastou um pouco e assentiu, olhando nos meus olhos.
- Promete que você vai tentar se acertar com a Soph? É muito ruim perder uma pessoa qua você ama demais. Não deixe que desentendimentos atrapalhem vocês...
Ele sustentou o meu olhar e viu que era um pedido verdadeiro.
- Eu vou tentar, Lia.
- É sério, Doug. Você nunca sabe o que o dia de amanhã te aguarda...
Cheguei em casa meio dia e graças a Deus não tinha ninguém pra me dar esporro. Eu estava me sentindo meio mal. Primeiro porque estava faltando o trabalho e nem tinha ligado pra avisar e segundo porque eu tinha enchido a cara na noite anterior. Arrumei a minha cama pra deitar mais um pouco e como de costume, pensei no Harry. Era ruim saber que ele estava longe, mas pior ainda saber que eu nunca o teria. Então eu simplesmente resolvi. Eu iria esquecê-lo.
Harry
Senti um aperto tão forte que sabia que algo não estava certo. Sabia que precisava vê-la, nem que fosse a última vez. E eu já sabia como faria pra sair daqui. Uma criança tinha feito treze anos e andava tendo visões. Era o sobrinho do Pajé. Eu de fato tinha sido o escolhido até que essa criança completasse a idade em que viraria Pajé da tribo. Conversei com os pais dela e sabia que eles estavam orgulhosos. Eu só poderia ir embora no dia da festa de iniciação que seria ainda nessa semana. Eu passaria o posto pra ele. E finalmente poderia partir. Pra sempre.
Sophia
Eu estava um caco. Sério. No segundo que o Doug saiu da minha casa, eu chorei até não aguentar mais e expulsei o Bernardo do meu apartamento.
- Flor, te acordei?
- Anh? Quem é?
É, definitivamente, pela voz dela, tinha acabado de acordá-la.
- Sophia.
- Ah, oi, Soph.
Sua empolgação foi tanta que eu claramente percebi que estava atrapalhando.
- Deixa, Flor. Depois a gente se fala.
Ela resmungou alguma coisa sobre ter sido acordada e percebi que estava acompanhada.
- Droga - falei pra mim mesma e logo depois a campainha tocou.
- Entrega pra Senhorita.
Era o Seu Jonas que estava parado na minha porta, com talvez o maior buquê de flores que eu já tinha visto na vida.
Obrigada, Jonas. E meti a mão no bolso, tirando cinco reais de lá entregando pra ele.
- Obrigada, Senhorita.
Ele falou, mas eu já havia fechado a porta. Estava empolgada com as flores. Talvez fosse do Doug dizendo que estava arrependido.
Abri o cartão.
"Desculpe pela confusão de ontem. Espero que ainda assim possamos nos conhecer melhor. Beijos, Bê"
Senti raiva quando li. Raiva e decepção. Joguei o cartão no lixo e em seguida todas as flores que estavam em meus braços. Na verdade metade ficou pra fora da lixeira. mais uma vez a campainha tocou.
- Seu Jonas, não traz mais nenhum...
E me calei. Era o Doug.
- Oi Sophia.
Acenei com a cabeça, porque parecia ter perdido a fala. Ele trazia o GB em uma caixa de transporte de animais e o soltou pela casa.
- Toma - ele disse e eu achei que falava do cachorro, até perceber que estendia um cartão de visitas pra mim.
- O que é isso?
- Leia.
- "Adestramento de animais domésticos" - li em voz alta - o que é isso, Doug? - repeti.
- Isso é pra quem vamos ligar pra dar um jeito no nosso GB.
Nosso GB. NOSSO. Sorri.
- Quer dizer que...
- Quer dizer que eu pensei melhor e resolvi que o que temos é bom demais pra jogar fora por causa de um mal entendido. Que eu quero que você volte a ser a minha namorada, Sophia. Você aceita?
-Claro, bobo.
E sentindo a felicidade no ar, GB começou a correr de um lado para o outro passando por cima de nossos pés. Não sossegou até que nos beijamos, pegamos a coleira e fomos curtir o nosso filhote.
- Doug - chamei assim que voltamos para o apartamento - Quero te fazer uma proposta.
- Indecente?
- Cala a boca - dei um tapa no seu ombro e comecei a rir.
- Ah, então não tem graça.
- Ah não? Então tá.
E fui até a cozinha pegar um copo de água e ele veio atrás.
- Não, para, por favor. Me diz o que é.
- Ué, mas vai ser tããão sem graça - ironizei.
- Sophia, por favor - e começou a fazer cócegas em mim.
- Tá bom - me rendi antes que ele me matasse asfixiada de tanto rir.
Ele se endireitou e segurou a minha mão.
- Doug, o que você acha de começarmos uma nova etapa na nossa vida?
- Você está dizendo...?
Assenti e ele sorriu, me beijando. Eu estava muito feliz. Eu estava nas nuvens.
Harry
Tudo estava indo conforme o planejado. Diferente de outras cerimônias, essa seria ao amanhecer. Eu não tinha conseguido sossegar de ansiedade e já estava organizando as coisas pro evento quando o futuro jovem Pajé chegou perto de mim.
- Espírito Cinza, estou com medo. E se eu não for o escolhido?
Estremeci só de pensar nessa possibilidade.
- Claro que você é o escolhido, pequeno.
- Mas eu estou com medo. Se fosse o escolhido não deveria estar seguro disso?
Abaixei para ficar na sua altura.
- Pequeno, sua segurança virá com o tempo e a experiência. Ninguém nasce pronto pra tudo. Entende?
Ele fez uma cara de confuso, mas logo assentiu.
- Certo, Espírito. Devemos nos apressar então, porque já vai amanhecer.
E então andamos enquanto eu pensava em como fazer a cerimônia. Pra meu espanto, tudo fluiu como se eu fizesse isso há anos. Logo a cerimônia já tinha acabado e eu juntava minhas poucas coisas pra partir. Queria vê-la. Queria ver a todos os meus amigos. Uma coisa começou a apertar no meu peito. Ele doía, mas sabia que era ansiedade. Felicidade. Muitos sentimentos juntos. Então eu parti. Pretendia chegar no dia seguinte no Brasil.
Tom
Acordei na casa da Bela e nos assustamos quando a irmã dela falou do outro lado da porta.
- Posso entrar? Por que a porta está trancada? - ela forçou a maçaneta enquanto eu acordava a Bela.
- Vai pra trás da cortina - ela sussurrou, mas não tive sucesso. Meus pés ficaram descobertos - Dentro do armário, Tom - mas quando abri, faltou cair tudo em cima de mim.
- Bela, ta acordada? Ta tudo bem? - Carol gritou do lado de fora.
- Já vou - Bela respondeu nervosa e se virou pra mim - embaixo da cama, amor.
Por um instante nós dois paramos pra perceber o apelido carinhoso. Mas logo me enfiei embaixo da cama enquanto ela levantava pra abrir a porta.
- Desculpe, eu estava dormindo.
Carol olhou desconfiada.
- Por que a porta estava trancada?
- Porque eu... eu estava dormindo pelada.
Ela demorou um pouco pra falar e eu tive que abafar um risinho.
- Entendo - não parecia ter entendido - é só pra avisar que hoje eu vou ficar em casa o dia inteiro. Pedi dispensa do trabalho porque estou com muita cólica.
Merda - pensei.
- Ok, Carol. Qualquer coisa te falo. Eu vou me organizar aqui.
- Beleza.
E fechou a porta.
- Legal, como vou embora? - sussurrei.
- Relaxa, a gente dá um jeito.
E demos. Graças a Deus em algum momento da tarde a Carol foi tomar banho e saímos. Eu estava morrendo de fome, porque tudo que a Bela tinha no quarto dela eram dois Twix e ela ainda me pediu um deles.
Doug
Já estava tudo combinado. Eu estava na casa da Soph pra comemorarmos o nosso próximo passo como casal.
- Então amanhã de manhã a gente convida todo mundo pro bar da piscina e contamos a novidade, pode ser?
- Concordo, amor - eu a envolvi com meus braços e beijei sua testa - Eu te amo, Soph.
- Também te amo, Doug.
Ela organizou o jantar - sim, ela cozinhou- e eu fui comprar um Champagne. Quando voltei ela já tinha arrumado tudo, o jantar estava pronto, a mesa estava posta e ela estava linda com um vestido longo.
- Tinha que ter me avisado, amor. Aí eu teria me arrumado também.
- Você está lindo assim, Doug.
- Você está muito mais.
Coloquei o Champagne em cima da mesa e segurei sua mão.
- Como eu tenho sorte de ter você pra mim.
Ela sorriu e me beijou.
- Você é o amor da minha vida - eu disse com os lábios ainda colados aos seus - Como não percebi isso antes?
- Por que você é meio lerdinho, amor - ela me deu um selinho e se afastou - Você também é o amor da minha vida.
E fomos jantar.
- Um brinde - disse depois que abri a garrafa - À nossa nova etapa.
- À nossa nova etapa - ela repetiu e o GB ganiu - E ao GB - ela completou rindo.
Thalia
Eu sonhei com ele. Não aguentava mais essa invasão de sonhos. Mas pelo menos não lembro como foi. Acordei e Alice estava me olhando. Tomei um susto.
- Está louca?
- Não, Lia. O Harry pediu pra eu falar com você.
- O Harry o quê? - sentei na cama tão rápido que fiquei tonta.
- Ele pediu pra dizer "estou voltando". Ou pelo menos foi isso que ele falou no sonho hoje.
- Alice, não viaja, meu amor - afaguei sua cabeça - Harry já foi embora.
E dizer isso foi como um soco no estômago. Mas não deixei transparecer. E não tocamos mais no assunto.
Danny
Tinha ficado com nota abaixo da média em uma matéria na faculdade e fiz uma prova pra tentar me recuperar. Estava feliz porque buscaria o resultado hoje e sabia que tinha dado pra passar.
- Boa tarde, Carlos.
Ele entregou a prova sem falar nada. Quando vi a nota, perguntei baixinho pra ele:
- Passei? - ele assentiu levemente, sem me dar atenção - PASSEI POOORRA! - gritei pra quem quisesse ouvir.
Thalia
Era uma daquelas raras ocasiões em que todos estavam reunidos na piscina. Eu trabalhava enquanto os outros conversavam e bebiam, mas não importava, porque o dia estava frio e quase não tinha movimento. Parei por um momento pra conversar com eles.
- Aí a psicóloga falou que eu to bem. Só vou precisar repetir os exames em dois meses. Mas ela disse que provavelmente o que eu não lembrei até agora, não vou lembrar mais.
Bela abraçou o Tom, que deu um beijo em sua testa.
- Bom, já que estamos contando boas notícias - Soph olhou para o Doug e sorriu. Voltou-se para nós mais uma vez e continuou - Doug e eu vamos morar juntos.
Os dois abriram o maior sorriso e todos comemoraram.
- Não tenho nada de bom pra contar - Danny pareceu pensar - Não, mentira - ele apertou os lábios e sorriu com os olhos - Vou me formar.
Todos aplaudimos e demos gritinhos, já que duvidávamos seriamente de que isso fosse acontecer um dia.
- Não é novidade pra ninguém - Flor começou e já sabíamos onde ia dar - mas eu tenho um namorado!
Ela deu pulinhos e beijou o James. Reviramos os olhos, já que ela sempre falava isso.
- Desculpa, gente - falei, dando de ombros - mas minha vida não tem nada de emocionante.
E assim que terminei a última sílaba, eu o vi. Congelei, porque não podia ser real. Percebi que o Danny olhou pra onde eu olhava e deu um grito. Era real. Ele estava lá. E me olhava. E sorria. Eu hesitei. Não sabia o que fazer. Então minhas pernas decidiram por mim e simplesmente começaram a caminhar em sua direção. Seu sorriso ia se alargando e eu comecei a sorrir também. Sentir seu abraço pela primeira vez foi mágico e eu me senti completamente aquecida. Estremeci quando ele tocou meu rosto. Sua testa se franziu.
- O que foi?
Olhei naqueles olhos que sempre quis conhecer e beijei seus lábios. Beijei tão urgentemente que sabia que perderia meu emprego por isso. Mas não importava. Ele estava aqui agora. De verdade. Comigo.
- Senti sua falta - falei ainda com os lábios grudados aos seus e chorei. Ele chorava também e ficamos abraçados por alguns segundos até o Danny chegar chorando e abraçá-lo também.
Harry
- E foi isso que aconteceu.
Já tinha pensado em como contaria para todos que eu estava de volta no momento em que o Pajé me deu seus últimos suspiros de vida.
- Então quer dizer que de todas as pessoas, você foi o único a sobreviver?
- Aparentemente não era a minha hora - dei de ombros, sorrindo para Thalia.
- Mas conta - Tom perguntou empolgado - Como foi morar em uma ilha? Que droga, eu sempre quis morar em uma ilha.
- Chato - tentava dar o mínimo de detalhes possível.
- Mas será que você não precisa de um médico? Depois de tanto tempo lá?
- Relaxa, quando fui resgatado, cuidaram de mim. Perdi a memória, por isso demorei pra voltar pra casa.
- Que legal! - Bela exclamou - Eu também perdi a memória. Por exemplo, não tenho ideia de quem seja você.
Então ela esticou o braço acima da cabeça para que eu batesse na sua mão. Eu o fiz.
- Mas - Danny parecia o mais estupefato - como isso foi acontecer? Quero dizer, to muito feliz por ter você de volta, mas não entendo como não publicaram nada sobre isso.
- Mas também se publicassem você não ia saber, Jones - Sam falou pela primeira vez desde que cheguei - porque você não lê nada.
- Cala a boca, Bradley.
Antes que a briga infantil dos dois continuasse, me pronunciei.
- Bom, se não se importam, vou tentar avisar à minha mãe que estou bem. Ela deve estar muito mal.
- Vai lá, cara - Doug bateu nas minhas costas e puxei Thalia comigo.
- Mas espera, como vocês dois se conhecem? - Sophia gritou e eu ignorei. Doug deu de ombros, mas sorriu largo pra mim e piscou, como quem compartilha um segredo.
- Não posso - ela choramingou - Meu trabalho...
Ignorei seu aviso e a carreguei comigo até a sua casa, onde ficamos por duas horas ouvindo minha mãe chorar de alegria. Comprei uma passagem pra ela vir me ver, porque não acreditava que eu estivesse realmente vivo. Combinei uma história com Thalia, sobre como tínhamos nos conhecido e depois caímos no sono juntos. E era onde eu queria ficar pra sempre. Ao lado dela.