Um mês depois
Florence
Já tinha um mês desde que a Sam e o Danny tinham terminado e eu ainda me culpava por isso. Eu não sabia que existia esse lado perverso em mim. Como fui má com a Sam naquele dia. E quem me conhece sabe que sou um amor de pessoa sempre.
- Danny?
Ele tinha me ligado e eu achei super estranho.
- Flor, posso passar aí?
- O que você quer?
Fui meio rude, mas na verdade eu estava meio nervosa.
- Só...conversar.
- Danny, você tem a chave daqui. Sabe que não precisa avisar. E o Tom não está em casa. Acabou de sair pra buscar a Bela.
- É, eu to sabendo. Eles voltaram a sair, né?
Há um pouco mais de uma semana, o cuzão do meu irmão tomou coragem pra voltar a falar com a Isabela. E a convidou para jantar. Ela aceitou. Desde então parece muito que eles são namorados. Mas o Tom me garantiu que eles nem ficaram ainda.
- Uhum.
Ficou aquele silêncio super desconfortável e ele fez um barulho engraçado com a boca.
- Posso passar aí em uma hora?
- Pode.
- Beleza então - ele parecia animado, mas sem jeito.
Desligamos e eu me desesperei. Me olhei no espelho e por pouco ele não quebra.
- Ai meu Deus. Uma hora pra me depilar, ajeitar esse cabelo... Será que aquela lingerie que ganhei no estúdio vai ser sexy o suficiente?
Parei pra pensar e respirei fundo.
- Calma, Flor. É só o Danny. Você já fiz isso antes. Com ele e com muitos outros...
Respirei fundo novamente e finalmente voltei a ser racional.
Dougie
- Amor, vem aqui que acho que fiz besteira.
Ouvi os passos apressados da Soph vindo em direção à sala e prendi o riso.
- O que foi, Doug? O que você fez dessa...
Ela se calou assim que viu. Seus olhos por pouco não saltaram da órbita, e sua boca se abriu em um sorriso meio incrédulo.
- O que... Mas como você... É pra mim?
Ela agora olhou em meus olhos e eu sorri, assentindo.
- Mas é lindo.
Estendi a mão para que ela pegasse o filhote de beagle que eu havia comprado pra nós.
- Já tem nome? É macho?
Ela levantou o cão para olhar suas indecências.
- Não tem nome ainda. É macho sim.
- Percebi. Que bolas imensas.
- Podemos chamá-lo de Grandes Bolas - brinquei.
- Adorei! Pode ser GB.
- Eu estava brincando - falei, coçando a cabeça.
- Eu sei, mas ficou perfeito, não é, GB?
Ela deu beijos no beagle e eu franzi o cenho.
- Você vai lavar essa boca antes de me beijar, né?
Aí ela sorriu aquele sorriso malicioso e veio correndo na minha direção, tentando me beijar e colocando o GB para me lamber.
- Ok, eu desisto. Estou começando a achar que vai ser uma péssima ideia. Vou devolvê-lo para a loja.
- NÃO - ela gritou - por favor, não devolve.
Ela fez carinha de cachorro que caiu do caminhão da mudança e eu derreti.
- Tá. Mas só se parar com esse negócio de beijo de cachorro.
- Eu paro. Prometo.
Ela sorriu e eu sorri também. Porque aquele sorriso era a única razão do meu.
Tom
Hoje foi o melhor encontro da minha vida. Quero dizer, não foi bem um encontro. Na verdade acabou sendo.
- O que vamos fazer hoje? - ela perguntou com os olhos brilhando.
- O que você quer fazer? Você escolhe.
Ela pareceu pensar e eu lembrei de como amava sua feição pensativa.
- Tive uma ideia.
- Compartilhe comigo então.
- E se a gente fosse à praia?
Hesitei. Ela evitava praia ao máximo desde o acidente.
- Tem certeza?
Ela sorriu de lado e encostou seu indicador entre as minhas sobrancelhas.
- Se ficar franzindo vai ter rugas.
Eu sorri da sua preocupação boba e segurei a sua mão, surpreendendo-a.
- Se é o que você quer, então vamos. Se quiser mudar de ideia depois, pode falar.
Abri a porta do carro para que ela entrasse e fechei logo em seguida. Sentei ao banco do motorista e sorri sozinho. Sabia que estávamos progredindo.
- Tá rindo de quê?
Percebi que ela me olhava e comecei a gargalhar.
- Desculpe, eu estou só... feliz.
Falei por fim e dei partida no carro, seguindo apenas algumas ruas até chegarmos à praia.
Danny
Menos de uma hora depois de ligar pra Flor eu já estava lá. Era estranho, mas desde que eu terminei com a Sam, passei a falar mais com a Florence. Cheguei a sua porta cedo ainda. E mesmo tendo a chave de lá, sabia que seria rude entrar sem ser convidado, então aguardei quinze minutos antes de tocar a campainha.
- Já vaai - ouvi Florence gritando do lado de dentro.
Um minuto depois, ela abriu a porta, com o cabelo jogado como usual, mas altamente sexy com uma lingerie branca por baixo de um roupão.
- Oi Danny. Desculpe a demora.
Ela abriu espaço e eu passei, demorando meu olhar em suas pernas desnudas.
- Não tem problema. Acabei chegando cedo mesmo.
Ela fechou a porta e eu comecei a andar pelo apartamento, em direção ao seu quarto.
- Danny - ela me chamou assim que entramos no cômodo.
- Oi? - me virei para vê-la e me assustei com seu olhar inseguro.
- Por que me ligou?
Estalei a língua e resolvi contar a verdade.
- Eu estava em casa, pensando no quanto nos aproximamos nesse último mês. E fiquei com vontade de te ver.
- De me ver? - ela levantou uma sobrancelha - Só isso?
- Bem, eu... - comecei a falar, mas fui bruscamente interrompido pela visão do roupão caindo pelos seus ombros.
Seu rosto estava levemente corado e contrastava com seu olhar e atitudes sexys.
- Você está... - cheguei mais perto para tocá-la. Sua pele era macia e quente. Eu queria sentir aquela sensação no meu corpo inteiro. Ela sorriu ao meu toque e me empurrou levemente até a ponta da cama. Instintivamente eu sentei e a puxei, beijando-a. Ela se ajeitou no meu colo, beijando meu pescoço e fazendo meu prazer aumentar.
Tirei minha roupa e fiquei apenas de cueca.
- Tira isso - ela ordenou e eu fiz.
- Sua vez - sorri maliciosamente e ela levou seus braços até as costas e jeitosamente retirou cada fecho do corselet. Sorriu pra mim e apontei com o olhar para a sua calcinha. Ela brincou com a minha sanidade enquanto se tocava antes de tirar a peça. Infelizmente ela acabou com a brincadeira, mas felizmente eu poderia participar agora. Puxei seu braço e ela sentou no meu colo mais uma vez. Nossos movimentos eram rápidos e precisos. O prazer final foi intenso e conjunto. Deitamos em sua cama e ficamos em silêncio, até finalmente adormecermos.
Sam
Eu já sabia que o Danny não voltaria pra mim. Mas eu estava desesperada. Confesso que no começo, meu interesse por ele foi puramente isso. Interesse. Mas eu me apaixonei por ele. Antes mesmo de começarmos a namorar.
- Lia?
- Não. É a Alice.
Esqueci que Thalia não estava de folga hoje.
- Sua irmã ta trabalhando, Lili? É a Sam que tá falando.
- Saaaam! Que saudades.
É eu sei. Todos me amam.
- Também to, Lili. Sua irmã não me ama mais...
- Por que não? - sua voz era triste e eu ri.
- Brincadeira, bebê. Mas deixa, vou ligar pro trabalho.
- Não sou mais bebê- ela resmungou do jeito que sempre fazia.
- Desculpe então, mocinha. Beijos.
E desliguei. Hesitei ao ligar pra Thalia. Liguei diretamente pro número do bar.
- Bar do...
- Poupe saliva, Lia. Sou eu.
Ela suspirou.
- Fale. Mas não demore, tá lotado aqui...
- O que você acha de eu me demitir?
- Como assim se demitir?
Ela falou um pouco alto e depois diminuiu a voz.
- Tá louca?
- Lia, a verdade é que o Danny tava certo. Não tenho perspectiva de vida. É claro que meu sonho é ser madame, mas isso pode dar muito errado. Posso não conseguir ser bancada o resto da vida. Aí eu faço o que?
- Eu é que não vou te bancar - ela falou rindo - brincadeira, bebê. Acho ótimo que você esteja começando a pensar no futuro. Mas pra que se demitir? Você pode pensar em uma faculdade, e depois vê o que faz com o trabalho.
- É... Tava pensando em Direito, o que você acha?
- Tava pensando direito? Pensando direito em quê?
Não aguentei e comecei a rir.
- Tava pensando em cursar Direito, o que acha? Dá dinheiro né? Ou isso, ou Medicina ou então Engenharia.
- Sam, vou ser sincera com você - ela fez um silêncio e eu quase pude ouvir suas engrenagens funcionando pra pensar em uma forma de falar o que viria a seguir - não acho que nenhuma dessas profissões combine com você. Pense talvez em Arquitetura, Desenho Industrial... Sei lá. Parecem ser mais a sua cara.
Fiz careta e me despedi, desligando o telefone.
- Arquitetura? Eca.
Liguei meu notebook e abri o Google. Comecei a pesquisar profissões e fiquei horas vendo esse tipo de coisa. Fui dormir de madrugada graças ao meu imenso interesse em uma faculdade. Sem ironia.
Thalia
Passei o dia inteiro sem pensar nele. Juro. Nem um minuto. Quando cheguei em casa exausta do trabalho, joguei minha mochila na cama e fui tomar banho. É impressionante. Mesmo sem entrar na piscina, fico fedendo a cloro. Eu ein.
Hora do banho é sempre um ótimo lugar pra pensar. Ou fazer show de rock para os meus produtos de cabelo. Mas hoje era dia de pensar. Pensei na minha vida. E em como eu estava conseguindo seguir em frente. Doeu pensar nele, mas faz parte.
Escorreguei ao sair do box e quase caí no chão. Me recompus rindo e saí de toalha do banheiro. Meu telefone estava em cima da escrivaninha e piscava com notificação. Foi aí eu que eu vi. E que doeu mais ainda.
Dentro do caderno que ele havia me dado, tinha uma foto nossa, tirada pela Polaroid. Ele estava lindo mesmo com seus olhos cinzas. Peguei a foto e encarei por um tempo. Suspirei pesadamente e comecei a chorar, rasgando o papel ao meio, separando nós dois. Deitei na minha cama com medo do futuro. Medo do que aconteceria em breve. A verdade é que eu nunca vou esquecê-lo. Não vou superar essa perda. Nunca.
Bela
Foi perfeito. Foi tudo simplesmente perfeito. Eu não tenho quase palavras pra descrever o quão perfeito foi o meu encontro com o Tom.
- Chegamos - cinco minutos depois de sairmos da minha casa, chegamos à praia.
- Quero pastel - fui anunciando, enquanto andávamos até o quiosque.
- Como a Senhorita desejar - Tom riu e fez uma reverência meio torta, mas que foi fofa.
- E Kuat, por favor.
Ele balançou a cabeça e afastou a cadeira para eu sentar.
- Você sempre foi cavalheiro assim ou é só porque eu perdi a memória?
- Assim você me ofende - ele fez uma cara meio tosca de ofendido e eu ri - Sempre te tratei bem, Bela. Sempre cuidei de você.
Fiquei envergonhada pela minha pergunta, mas passou bem rápido.
- Sabe, Tom, eu queria conseguir lembrar de você. Lembrar de tudo que passamos. Tudo mesmo.
- Eu queria que você lembrasse do quanto me amava - ele falou um pouco cabisbaixo e não pude deixar de ficar triste.
- Tom - segurei sua mão e apertei de leve - Se eu perdi a memória, foi por algum motivo. As coisas não acontecem ao acaso...
Acreditava piamente nisso. Sabia que se eu ainda lembrasse de como foi me sentir traída, não estaria aqui com ele agora.
- Desculpe, eu estou estragando tudo, não estou?
- Cale a boca, por favor. E sem depressão hoje, porque eu to muito feliz pra deixar isso acontecer.
Comemos, conversamos e pagamos a conta.
- Espera - falei já quando estávamos chegando no carro.
- O que foi?
Olhei em seus olhos e saí correndo, voltando para o quiosque e parando apenas para ver se ele me seguia e tirei minhas rasteirinhas. Seu olhar era confuso, mas ele estava quase me alcançando. Corri até a areia e meus pés sentiram o frio cortante que se instalou durante a noite.
- Bela, espera!
Ouvia sua respiração de onde eu estava e continuei correndo. Corri até meus pés baterem na água quente e logo depois todo o meu corpo estar sentindo a sensação de ser envolvida pela calmaria. O mar estava calmo e eu não estava com medo. Senti a mão do Tom encostar no meu ombro e ele me virou, me deixando de frente pra ele.
- O que você...
Eu não aguentei. Comecei a gargalhar. Havia pânico em seu olhar e eu percebi o quanto ele se importava de verdade comigo. O quanto ele gostava de mim.
- Tom, eu gosto de você - falei sem pensar, mas feliz por ter dito.
Rapidamente seu olhar preocupado deu lugar à felicidade e sorrimos. Ele se aproximou de mim e me beijou. Seus lábios eram mais quentes que a água do mar e eu senti vontade de ficar lá pra sempre.
- Sabe por que a água do mar é fria durante o dia e quente à noite? E a areia é ao contrário?
É óbvio que eu sabia a resposta, mas ouvi Tom me explicar coisas sobre o calor específico e fiquei encantada. Não com a sua sabedoria em física. Fiquei encantada ao perceber que eu estava me apaixonando. Eu estava me apaixonando pelo Tom.
Sophia
Eu estava muito puta. GB fez o favor de fazer xixi na minha sala inteira.
" Dougie Lee Poynter, se você não der um jeito nesse mijão, não vou querer ver nenhum de vocês dois aqui novamente"
Esse tinha sido o bilhete deixado por mim para o meu querido e doce amado namorado, apenas uma semana depois da chegada do GB.
Eu ia encontrar as meninas no shopping hoje cedo, mas resolvi remarcar pra mais tarde e tirar uma manhã relaxante no spa do hotel. Elas iriam me ajudar a comprar um vestido para a cerimônia de casamento de algum deputado escroto qualquer, que eu seria obrigada a ir. Não estava nem um pouco afim. Minha vontade era de mandar meu querido pai tomar no cu e arrumar uma acompanhante. Nem que ele tivesse que pagar por isso.
- Bom dia, Srta. Harrison. Gostaria do pacote de sempre?
- Não, Leila - respirei fundo e olhei para a simpática atendente do spa - Hoje, quero o mais completo que tiver, mais relaxante, mais delicioso e sem interrupções, por favor. Não quero saber se for o Papa ou o Presidente dos Estados Unidos. Mande retornar à noite.
- Sim, Srta. Harrison. Como quiser.
Ela me olhou estranho, já que eu sempre era simpática e calma e totalmente fofa. Fazer o quê? Todo mundo tem o seu dia de cão. Ai cacilda. Só de pensar em cão, me lembro dos dois que deixei em casa...
Sacudi a cabeça e segui Leila até a sala onde eu seria finalmente revigorada.
- Bom dia, Srta. Harrison, serei o seu atendente de hoje.
Assim que ouvi a palavra "seu", resolvi olhar, já que nunca havia sido atendida por um homem antes.
- Você é novo? - resolvi arriscar.
- A Srta. será a minha primeira cliente.
Ele ficou vermelho ao falar isso.
- Quer dizer então que sou cobaia?
Agora ele ficou mais vermelho ainda e não respondeu.
- Qual o seu nome?
- Meu nome é Bernardo, Srta.
- Prazer, Bernardo. Preciso te dizer algumas coisas. Te explicar como eu gosto da massagem e tudo mais.
Harry
Eu já estava cansado dessa tribo. Não queria abandoná-los porque eles contavam comigo para ajudar em seus problemas. Mas pelo amor de Deus, eu tenho os meus próprios problemas. Não quero passar cada segundo sendo seguido por um indígena, querendo que eu o ajude. Queria partir. Mais que tudo, eu queria partir. Na verdade, mais que tudo, eu queria tê-la. Mas isso não seria possível.
Sentia saudades da minha antiga vida e todo dia pensava em visitá-la. Mas ela estava indo bem. Ela estava bem sem mim e era assim que deveria continuar.
Florence
Ok. Preciso dizer que isso não foi nem um pouco como eu esperava. Foi... estranho. Quero dizer, foi bom, muuito bom. Danny melhorou muito desde a primeira vez que transamos (e eu também). Mas a questão é que faltou alguma coisa...
- Flor...
Ouvi o berro do outro lado da porta, junto com uma batida.
- Merda - só deu tempo de praguejar e me cobrir.
- Só quero saber se você vai querer sair pra tomar café da...
Aí ele abriu a porta, enfiou a cabeça pra dentro e berrou. Nessa hora o Danny acordou, mas Tom já havia saído correndo do quarto e já não ouvia mais seus passos.
- O que aconteceu? - Danny levantou rapidamente da cama, assustado.
- Meu irmão acabou de entrar aqui e ver a gente...
Escondi o rosto com o lençol, para que ele não visse o quão constrangida eu havia ficado,
- Tá tudo bem, Flor?
Abaixei o lençol e dei o meu melhor olhar de "não acredito que você está perguntando isso" para o Danny.
- Obviamente não está tudo bem - ele respondeu a própria pergunta - Desculpe, Flor.
- Desculpar você? Por quê?
- Por meter você nessa.
- Na verdade você não me meteu em nada. Mas isso pode ser um problema entre vocês.
Silêncio constrangedor.
- Enfim - fui cortando ao ver que estávamos ficando cada vez mais constrangidos com a presença um do outro - Acho que você deveria ir embora agora.
Ele fitou as minhas mãos antes de responder.
- Como quiser.
E sorriu. Se arrumou e menos de cinco minutos depois, eu estava arrumando a cama em que havíamos dormido, lembrando da sua carinha ao sair da minha casa. Ele estava triste por ter sido enxotado. E eu também.
A verdade é que eu sempre sentiria algo pelo Danny. Afinal, ele foi o meu primeiro (e único) amor. E é realmente como dizem por aí: o primeiro amor a gente nunca esquece. Mas eu tinha tocado a minha vida pra frente. Não poderia ficar presa ao passado. Danny nunca seria meu porque eu não o queria mais. Finalmente pude perceber que o meu passado já havia se desprendido de mim primeiro.
Doug
Desde que esse beagle maldito chegou aqui, só tomo esporro da Soph. Agora ela deu pra ficar fora de casa e deixar bilhetinhos espalhados pela casa. Todos brigando comigo. Eu queria devolver essa praguinha, mas nããão, Sophia tinha que fazer carinha fofa e eu acabei cedendo. Há uma semana eu morava na casa da Soph, porque ela falou que não ia ficar limpando o que o GB fizesse. Mas é dela. O cachorro é dela. Foi um presente. Se eu soubesse que ia sobrar pra mim, não tinha comprado porcaria nenhuma.
Sam
Eu consegui. Depois de muitas tentativas, consegui me matricular em uma faculdade que ainda tinha vaga. Eu escolhi Arquitetura. Não sei porque. Desde que a Thalia mencionou, comecei a pesquisar sobre e acho que me apaixonei. Queria uma reunião com nossos amigos, pra contar pra eles.
"Casa da Soph às 21 horas. Tenho novidades."
Fiquei na dúvida se enviava para o Danny também, mas engoli o meu orgulho e enviei. Todos me responderam, exceto o meu ex namorado. Fiquei um pouco triste, mas logo passou. Comecei a me arrumar para o shopping com as meninas hoje. Seria finalmente uma ótima distração para os meus pensamentos. Desde que eu havia decidido começar uma faculdade, não tinha comprado nem uma balinha sequer. Minha mãe estava radiante com isso. E eu também. Sabia que dá pra juntar dinheiro? Juro. Eu to conseguindo, nem acredito nisso.
Às cinco da tarde eu já estava pronta para sairmos. A Bela passou aqui e fomos buscar a Sophia e a Lia.
Bela
Eu estava retardadamente feliz. Não tinha uma pessoa que passasse por mim no condomínio que eu não dissesse "bom dia" "boa tarde" "tudo bom?" "dia lindo, não?". Depois comecei a me sentir meio idiota e resolvi parar com isso. Cheguei na Sam e ela incrivelmente estava pronta e me esperando.
- Uau, qual novidade você quer contar? Que virou responsável?
Eu ri e ela fez uma careta.
- Muito engraçada, mas não. Vou contar só quando todos estiverem juntos.
E sorriu.
Buscamos a Sophia que parecia com um humor maravilhoso. Ela andava insuportável ultimamente e confesso que fiquei com medo do que esperar da nossa ida ao shopping.
- Cadê a Lia? - Sam perguntou.
- Tá terminando de se arrumar. Ela ficou presa no trabalho, e se eu não tivesse falado que precisava dela, ela ainda estaria lá.
- A Jane deve estar uma fera.
- Ela me odeia - Soph deu de ombros - Mas não importa, porque eu mando aqui.
E riu. A gente sabia que ela falava isso brincando, embora fosse verdade.
- Me espera, me espera, me espera!
Surgiu uma Thalia correndo desesperadamente até o carro, toda desengonçada. Quando já estava chegando, a lerda caiu no chão, mas rapidamente se levantou e foi andando até o carro com cara de choro.
- O que foi? - Sophia perguntou enquanto eu e Sam ríamos em alto e bom som.
- Eu caí - ela fez uma cara de dor e nós duas rimos mais ainda.
- Juuuura? - Sam conseguiu perguntar quase sem fôlego.
- É que tá doendo - ela fez um bico e eu parei de rir. Ela parecia que ia começar a chorar a qualquer minuto.
- Toma - Sophia pegou um lenço umedecido e deu pra Thalia passar no machucado, pra limpar.
- Por que você anda com um lenço umedecido na bolsa, Soph?
- Olha pra minha cara - todas olhamos - vê se eu tenho cara de quem vai usar aquele papel lixa higiênico do banheiro público do shopping?
Fomos falando merda o caminho inteiro. Flor ligou pra avisar que já estava no shopping e que queria sorvete.
Thalia
Hoje eu escrevi uma carta suicida. Meio dramático, eu sei. Mas acontece que eu queria muito morrer. Não me matar, porque sei que nunca teria coragem de fazer uma coisa dessas. Mas morrer... morrer pra reencontrar o Harry. Ele havia voltado com força para os meus pensamentos e ficava cada vez mais difícil me concentrar em alguma coisa. Meus pais chegaram a me perguntar se eu estava usando drogas. Vê se pode... Nunca usei nada. Tá, uma vez eu fumei maconha, mas foi uma única vez. E foi a coisa mais sem graça do mundo, não recomendo. Hoje passei o dia pensando em como seria se eu estivesse com o Harry. Era um saco pensar nele. Por isso agradeci quando finalmente a Sophia disse que precisaria de mim na recepção e eles me dispensaram. Pelo menos uma distração.
- Tá ardendo pra cacilda - eu falei. Ah é, o machucado era outra distração.
- Vai passar - Soph super fofa falou - Só que deve doer um pouco quando a gente for andar. Porque é bem no joelho.
Ela estava certa. Seria horrível.
- Cara - Sam chorava de rir - Foi muito engraçado. Você com cara de tacho sem saber o que fazer.
Resolvi que ignorar era o melhor a fazer e mudei de assunto.
- Mas então, Soph. Você está tão feliz. O que houve?
- Ai, tava precisando de férias do Doug. Dele e daquele cachorro.
- Ah, eu to louca pra conhecer o GB - Bela comentou lá da frente.
- Leva pra você!
Soph emburrou de novo e me arrependi de ter tocado nesse assunto. Logo depois ela melhorou o humor novamente.
Tom
Já estava pronto pra ir pra casa da Sophia, quando lembrei que minha querida irmã tinha saído com o carro. Queria ter coragem de ligar pro Danny e pedir pra ele me buscar. Sei que mesmo que ele não precisasse sair do prédio pra ir pra casa da Sophia, ele faria isso por mim. Mas eu não tinha coragem. Não sabia como olharia na cara do meu melhor amigo de novo, sabendo que ele tinha dormido com a minha irmã.
- Florence - resolvi ligar pra criatura - Tem como passar aqui e me buscar antes de ir pra Sophia?
- Tem, Tom. Mas... sobre hoje de manhã...
- Sério, você não precisa se explicar. Esquece isso.
"Danny é que precisa se explicar" - pensei
Desligamos o telefone, e no final das contas, quem veio me buscar foi a Bela, acompanhada da Sam.
- Como sou burra - Sam gritou - Por que eu vim com você? Cruzes, maior vela.
- SAM! - Bela repreendeu e abaixou a cabeça, claramente envergonhada.
Danny
O clima estava mais que estranho. Minha ex namorada tinha feito um convite a todos, para contar novidades. Assim que cheguei lá na casa da Sophia, ela não estava ainda. Quando chegou com a Bela e o Tom, nem me olhou. Sem contar a Florence que não falou comigo e nem o Tom. A Thalia estava viajando o tempo todo. Sophia só sabia brigar com o Doug e o GB. Bela se revesava entre conversar com o Tom e dar carinho no GB. Doug estava com uma cara de bunda suja.
- Bom gente - Sam anunciou, meio hesitante - Antes que isso aqui vire caso de polícia, vou falar o que precisava falar.
Ela fez um pequeno silêncio para gerar expectativas.
- Eu consegui uma vaga na faculdade. Vou fazer Arquitetura.
Thalia foi a primeira a levantar e abraçá-la. O resto ficou estupefato.
Logo nos recompomos e demos os parabéns.
- Estou impressionado, Sam - precisei dizer.
- Eu sei - ela respondeu com um sorriso - eu também.
E se virou para receber um abraço do Tom.
Ela finalmente estava tomando juízo.
Florence
Não falo direito com o Danny desde o nosso episódio sexual. Ele também não me procurou.
Tenho andado com uma vontade muito grande de ficar com o James. Muito estranho isso. Hoje dispensei meus dois outros maridos e passamos um dia juntos. Fomos ao Jardim Botânico.
- Ai que brega, James.
- Não é nada brega. Olha só que lindo isso aqui.
- Você está começando a me fazer duvidar da sua sexualidade.
Eu ri, mas era verdade. O lugar era incrível.
- Como eu nunca vim aqui antes?
- Você fica ocupada demais indo pra festinhas e dividindo o tempo entre os seus três trouxas.
Espera. Um minuto de silêncio, por favor.
Eu olhei pra ele desconfiada e muito surpresa ao mesmo tempo.
- Você sabe?
Ele deu de ombros.
- Como você sabe e nunca falou nada?
- Sabe, eu não sou idiota.
Ele disse só isso e eu fiquei esperando que continuasse. Mas não o fez.
- Nunca te chamei disso.
- Eu sei. Mas talvez eu seja mesmo. Porque a gente ta junto há um ano e você nunca fez questão de ficar só comigo. Eu gosto de você, Florence. Gosto de verdade. Mas às vezes você me faz crer que não sou bom o bastante. Que não sou o suficiente, então você precisa de outros caras pra te satisfazer.
Corei com uma intensidade que não imaginei ser possível. Não que eu tenha visto, mas senti minhas bochechas ficarem tão quentes que acabei tendo fogachos.
- Eu nunca imaginei que isso te magoasse...
Falei espantada por nunca ter pensado nisso.
- O quê? Você ter outros caras além de mim? Ou você preferir ficar com eles? Escolher qualquer um menos eu pra viajar? Tenho ciúmes de você, Florence. Não queria ter que dividir você com ninguém. Queria ter você só pra mim. Por isso já te pedi em namoro tantas vezes. Por isso te chamo pra morar comigo. Mas parece que ta na hora de perceber que você nunca vai querer algo sério comigo, né?
Eu estava tão pasma que não tive reação alguma.
Ele suspirou.
- Eu imaginei.
E virou as costas e foi embora. Foi embora, me deixando sozinha lá.
Eu estou simplesmente... abismada.
Sophia
Chegou o dia do casamento de mais um corrupto. Eca. Como eu odiava isso. Mas infelizmente enquanto eu dependesse do meu pai, precisaria fazer suas vontades.
Pedi pra Bela me ajudar na maquiagem, já que eu era muito mais ou menos com isso. Já tinha feito o cabelo no salão do hotel e estava satisfeita com o resultado. Coloquei o meu vestido longo preto de um ombro só. Ele tinha uma abertura lateral até a metade da coxa. Sabia que meu pai não ia aprovar, mas era isso mesmo que eu queria.
- Uau - Bela comentou quando coloquei o vestido.
- Lindo né? Naquele dia que a gente comprou, não imaginei que fosse ficar maravilhoso assim.
- É que agora você tá toda gata aí, de make up e cabelo feito.
- Faz sentido - falei, me olhando no espelho.
Fiquei um pouco triste porque o Doug não estava lá em casa pra me elogiar.
- Mas e aí, Soph? E você e o Doug? - Bela pareceu ler os meus pensamentos, mas ela sempre fazia isso mesmo.
- Ah, você sabe, né?
- Nem sei, cara... - ela respondeu distraída e eu ri.
- É, não sabe... enfim, a gente brigou de novo. Por causa do Gb. Não aguento mais aquele cachorro fazendo bagunça. Coloquei os dois pra fora de casa.
A Bela riu e foi escolher um salto no meu closet pra eu usar.
- Sabe - ela falou mais alto, pra que eu escutasse - muita besteira essas brigas de vocês. Deixa o Gb voltar e o Doug que praticamente mora aqui mesmo. Bichinho é assim mesmo. Principalmente filhote. Eu sei porque o Nico era bem assim mesmo.
- Não sei. Não tenho vocação pra babá de cachorro.
- Pensa nisso - ela voltou do closet, trazendo um salto que eu amava, mas que andava meio esquecido. Era preto com spikes. Totalmente inapropriado para a ocasião. E por isso mesmo foi o que eu resolvi usar.
Thalia
Eu estou exausta. Essa garota ainda me mata do coração.
- Cara - Sam começou, ofegante - Como você aguenta o pique dessa garota?
- Eu eu por acaso - falei com a respiração entrecortada - to com cara de quem ta aguentando?
Bastava piscarmos e a Alice sumia. Impressionante. Tava começando a achar que ela não via fantasmas, mas que era um.
- Alice, desce daí...
- Nem vem, Lia. Me deixa em paz.
- Pelo amor de Deus - Sam colocou as mãos no joelho - faz o que ela ta pedindo e vamos sentar no banquinho.
Assenti pois já não tinha forças pra falar.
- Mas então - perguntei quando já conseguia respirar normalmente - qual foi o real motivo de você ter vindo?
Sam nunca tinha se oferecido pra me ajudar a cuidar a minha irmã.
- Você percebeu - ela falou depois de uma pausa curta - como todo mundo estava estranho no dia que fomos na Soph?
- Que você contou da faculdade?
- Uhum - ela emitiu um som e ficou quieta.
- Às vezes as pessoas não estavam muito bem. Ou ficaram abismadas com a notícia.
Eu ri, mas ela não me seguiu.
- Não sei - ela pareceu pensar - acho que era algo a mais.
- Tipo o que?
Me endireitei no banco da praça com interesse na conversa.
- Eu reparei que o Danny não falou com a Florence e nem com o Tom. E isso só pode significar uma coisa...
- Do que você está falando?
- Não reparou que eles não se falaram? Lia, eles nem se olharam.
Balancei a cabeça em negação, porque não tinha percebido.
- Então. Mas isso só pode significar duas coisas, na verdade: ou o Danny e o Tom brigaram feio e a Flor tomou as dores do irmão... Ou - ela falou dando ênfase, tentando causar um suspense - a Flor e o Danny transaram e o Tom descobriu. Assim, ficou puto com o melhor amigo.
Eu ri. Na verdade eu gargalhei.
- Sam, de onde você tira essas coisas?
Mas antes que ela pudesse responder, fomos interrompidas por uma Alice chorosa, com um galo na cabeça. Fomos pra casa cuidar da minha caçula e aquele assunto rapidamente foi esquecido.
Harry
Eu sabia que as coisas não estavam indo bem lá no Brasil. Esse meu lado sensitivo escroto tava começando a me incomodar. Eu sabia quando as pessoas que eu mais gostava estavam passando por dificuldades. Era uma espécie de sexto sentido. Era chato demais. Por exemplo, a minha mãe estava sempre triste. E minha irmã também. Porque minha mãe não dava mais atenção pra ela. Não dava mais atenção pra ninguém e continuava de luto por mim. Quando eu morri, uma parte da minha mãe foi junto. Ninguém deveria perder alguém que ama. Dói demais. Eu sei porque eu já perdi alguém. Eu perdi a minha Thalia.
Tom
Resolvi procurar o Danny hoje, afinal, precisávamos colocar as cartas na mesa e sermos sinceros.
- Fala aí, cara - ele me cumprimentou quando cheguei na porta do seu apartamento.
- Cara, eu vim aqui com um propósito. Quero saber quais são as suas intenções para com a minha irmã.
- Como é que é?
E para a minha surpresa, não foi o Danny quem respondeu, e sim o Doug.
- E aí, cara. Não sabia que tava aqui, beleza?
Tentei mudar de assunto, mas não deu. Florence ia me matar.
- Não, pera aí. Rebobina. Que história é essa, seu bando de filho da puta? Será que dá pra me explicar?
- Nossa, Doug - Danny fez a cara dele de quem não estava entendendo - que coisa velha. Rebobina. Quem fala isso?
E riu nervosamente. E esse riso nos entregou.
- Eu e a Flor, a gente... você sabe...
- Vocês transaram?
Gemi baixo desejando ser surdo só por aqueles minutos. Não queria presenciar essa conversa.
Danny só assentiu e Doug ficou literalmente boquiaberto.
- Ta aí. Nunca tinha imaginado isso.
- Mas a gente já fez isso antes...
Danny deixou escapar e logo tapou a própria boca, dando depois um tapa na testa.
- Como é que é? - bradei, com raiva por não saber disso.
- Foi há muito tempo atrás, Tom. Não fique com raiva disso, por favor.
Enquanto Doug continuava boquiaberto, Danny não sabia o que dizer e eu devia estar soltando fumacinha pela orelha.
- Mas e aí? Ela é boa? - Doug perguntou depois de alguns minutos de silêncio e eu bati na sua cabeça.
- Ei!
- Pra caralho - Danny respondeu rindo e eu dei um tapa no braço dele.
- Será que podemos falar agora sobre... Sei lá, videogames?
- Cara, como você é viado - Doug riu - a gente aqui falando de mulher gostosa e você querendo falar sobre o Super Mário?
- Acontece que a mulher gostosa em questão é a minha irmã. E não estou afim e saber nada sobre a vida sexual dela.
- Beleza então - Danny segurou o riso - Então pega o controle e vamos atirar em algumas cabeças.
Soph
Tenho que admitir. Tudo estava lindo. Se não tinha sido a noiva, então a organizadora estava de parabéns. Muito bom gosto. As cores não eram chamativas, mas tornavam o ambiente completamente elegante. O salão não era pequeno, mas também não era grande. Parecia ser do tamanho perfeito.
Mas foi aí que eu o vi. Logo depois de examinar as velas que estavam dentro de pequenos aquários com água em cima das mesas. Nossos olhares se cruzaram e eu não estava acreditando. Ele estava lindo. Maravilhoso, eu diria. E estava vindo em minha direção.
- Oi Bernardo - cumprimentei quando ele pegou a minha mão e beijou-a.
- Srta. Harrison, mas que prazer vê-la aqui hoje à noite.
Sentir aquelas mãos que já tinham me massageado e o toque dos seus lábios me deixou com tesão. Preciso confessar.
- Confesso que... - parei de falar para não misturar meus pensamentos com o que diria a seguir - estou confusa com a sua presença aqui.
Ele riu aquele riso suave que dava vontade de me jogar em seus braços e beijá-lo com vigor.
- Sou filho do Deputado Pedalino.
- Ah meu Deus - demorei um pouco para associar - você é o Bernardo Pedalino.
Ele riu e assentiu.
- Por que você trabalha no hotel?
- Bom, desde que eu resolvi sair de casa, meu pai parou de me sustentar. Então tive que arrumar um emprego. Mas ele continua me chamando para esse tipo de festa, acho que para me convencer a voltar pra casa, sei lá. Faz anos que não vinha a uma, mas fiquei sabendo que a Srta. estaria aqui e resolvi aparecer.
- Por favor, me chame de Sophia - pedi envergonhada.
- Ok, Sophia. Posso te pagar uma bebida?
- Mas é open bar - respondi.
- Por favor, não estrague a minha cantada.
Eu ri e ele segurou a minha mão, me guiando até o bar.